sexta-feira, 22 de julho de 2016

banho

no chuveiro
nem te falo
pensei em você
o poema escorreu pelo meu corpo
desceu pelas pernas
fez um espiral
que pena

sumiu no ralo

Lola Davi

sábado, 16 de abril de 2016

cerejeira

minha força vem
de todas as vezes em que precisei me curvar
de cada insulto que aceitei engolir
de todas as mentiras em que consegui acreditar

minha gana, meu bem
vem de cada verdade que não te gritei
de cada abandono que não te deixei
de todo perdão desperdiçado
do meu eu arrebentado
do meu amor, que não era vidro
e se estilhaçou
junto comigo

o meu poder
é hoje me ser

diferente
do que você pensa
(e ao contrário de você)
eu, por dentro
sou imensa
e não paro
de florescer

sexta-feira, 11 de março de 2016

dia desses nos encontramos
eu e meu desespero

sorrimos
como velhos conhecidos

passamos ao largo
em respeitoso silêncio
quase comovidos

nosso assunto
era já antigo

Laurene Veras

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

vem, brisa
vem, me refresca
me tira a camisa
me venta
me sopra
me lambe
me avisa
que a noite
é lufada
chegada
e partida
de vela enfunada
horizonte
e toada
vem, meu amor
vem ser minha estrada

Laurene Veras

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

domingo, 17 de janeiro de 2016

casa vazia

na poeira deixada pelos móveis
nas paredes os contornos dos quadros
no azuleijo uma mancha
de bebida derramada

sem sorrir
te acenarei
em uma fotografia desbotada

Lola Davi

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

incomunicabilidade


meu medo, silêncio
o desejo, reticente
a pressa, uma metáfora

o suor, permanência
de, morando na tua pele
e, com fúria, impaciência
construir um castelo
para deixar a linguagem
ir à falência

Laurene Veras

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

invenção

se te penso
e te imagino
e muito

é por que és a ideia
a palavra
a ameia
na muralha
por onde espio
teus exércitos
teus meninos
fantasiados
de soldados

se te chamo
e te grito
e te reclamo

é por que és
o cheiro do café
na manhã solitária
o primeiro abrir de olhos
o sempre riso na pantalha

e te poemo
e sonho
percebo
e penso
essa breve melodia
uma quase surpresa

uma pequena
aleivosia
que cometo
contra minha
fortaleza

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poema andarilho

Le Baiser, Pablo Picasso (1969)


você é o mítico painel
que o mestre espanhol
jamais criou:
a fúria está nos detalhes
uns olhos que furtam miragens
a boca difusa em contrastes
a pele que o cheiro deixou
(documento antibarbárie
nas cores de tantas bandeiras)
você é mosaico de olhares
picassos tarsilas riveras
vascos de prados e rayuelas
(pegadas que o vento apagou)
você é todos os lugares
espanhas não peninsulares
a luz que redime da dor

Laurene Veras