quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Dois poemas natalinos



Há Pessoa que diga de todos os cansaços.

Mas nem mesmo ele e todas as suas malas por arrumar

resgatam meu sonho náufrago.


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Com a alma

clara em neve que desanda
......
Laurene Veras

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A imagem, perfeita, é Ryder também.

Nau



Teu corpo

meu barco


Saliva marinha

Tua língua na minha


Teus braços são lemes

Os silêncios calmarias


As mágoas tempestades

Terríveis e solenes


Teus dentes

Vestígios

De coral


Tua ausência é ferida

Que arde com sal


Laurene Veras
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O Holandês Voador de Albert Pinkham Ryder, simbolista americano.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O pai nosso




Inscrição


Eu vi a luz num país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme...


Camilo Pessanha
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A pintura, super fofa e natalina...rs...é o Chronos de Goya. Na teogonia de Hesíodo, Chronos o deus que devora os próprios filhos. "Theos"= Deus "Gonia" vem de Genea, que significa origem. Sacou? Ora (como diriam meus ex-colegas da escola espartana), o projeto poético de Pessanha publicado postumamente se intitula "Clepsidra", que nada mais significa do que "relógio d'água". Não por acaso, a poética de Pessanha gira em torno da trágica e irrefreável fluidez do tempo. Portando, nada mais "tempo" nem trágico do que esse Goya, nest pas? Tudo a ver com os dias que ventam hoje.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Já que é natal...




No deserto

ninguém por perto

o que eu queria

nem água

nem companhia


bastava

uma estrela guia.
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Laurene Veras
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A ilustração é da Lupe, genial, não perde tempo e vai conferir:

Dezembro navalha do ano*


* Lisien V
Esta é uma das minhas tiras favoritas, e de um dos meus quadrinistas favoritos.
Pra ver mais do Laerte, clica aqui http://www.laerte.com.br/
Para ver mais de Lisien V clica aqui http://lisianev.wordpress.com/

Aquele espírito de sábado à tarde, a não ser pelo aspecto ridículo da flor do Flamboyant



Um dia, talvez, eu desista
(como se isso já não fora...).
Simplesmente vou parar.
Não tentar, nem debater,
nada negar e nada querer.


Dia desses olho no espelho
e me vejo,
não o que agora sou,
mas o que é não ser.
Será um dia mágico e pesado,
talvez esteja quente e úmido.
O dia que em que estarei
sumariamente cansado.


O reflexo será o próprio espelho
refletindo o azulejo do banheiro,
e talvez surja uma sobra incerta,
uma ex-pessoa,
desaparecida e fantasmagórica
espreitando o rosto perdido.


Sem chorar nem rir.
Sem buscar nenhum sentido.
Sem nada estar fazendo.
Sem emitir nenhum ruído.
Melancolicamente não sendo...


Laurene Veras
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O quadro é Munch.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Dois poemas que são o mesmo para dois leões idem parte I







Silencioso

contempla

a grama


em seu repouso

altivo

parece manso


poderoso

e terrível

dono da savana


de seus passos

não se escuta

o avanço


ágil

arrebata

a presa incauta


saciado

é belo

em seu descanso.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ricardo

EU

Véu que revela
e oculta
conforme a vontade
do vento.
Sombra do som,
senda no sonho,
aqui se esconde um eu
livre de mim e de você.

Aonde ele vai,
por que ele é assim,
ninguém pode saber.
Um eu em terceira pessoa.
Senhor absoluto
da sua casa de papel.

Ricardo Silvestrin
.........................................
Já que falei no professor Silvestrin deixo um poema dele. Nem preciso dizer que gostei porque sou fã desde sempre. Quer mais? Ó:
http://www.ricardosilvestrin.com.br/
...........................................

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Lost in Translation?

"Tradução em debate"
com IVO BENDER, PEDRO GONZAGA, DANIEL PELLIZZARI e MARIA CRISTINA LENZ DE MACEDO
28/11,
às 18h30
Palavraria (Vasco da Gama, 165 - telefone 3268-4260)
Grátis
O debate faz parte da programação da Verbalada portátil Vol.
Produção: jornal Vaia
Contatos: Fernando Ramos: 51-98923603

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Notinha


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Só para constar, foi bem legal o evento sobre Baudelaire, e o melhor, o primeiro de muitos, sempre com a mediação do professor Silvestrin, sempre na Palavraria, e eu sempre que puder estarei lá.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Ninguém me chama de Baudelaire!




"Qual é a do Baudelaire?" com Ronald Augusto, Ricardo Silvestrin e Rosane Pereira 22/11, às 18h30 Palavraria (Vasco da Gama, 165)
Grátis
O debate faz parte da programação da Verbalada portátil Vol.2
(informações em anexo)
Produção: jornal Vaia http://www.jornalvaia.com.br/
Contatos: 51-98923603 ou jornalvaia@gmail.com
O poeta Ricardo Silvestrin convidou o poeta e crítico Ronald Augusto, que preparou um curso recentemente sobre Baudelaire, e também a psicanalista e tradutora Rosane Pereira Pinto, grande leitora de Baudelaire, para juntos falarem sobre esse autor que está na base de tudo que se faz em poesia até hoje. Qual é a do Baudelaire? Um encontro para compartilhar visões, leituras, enfim, saber qual é a do poeta.
...................................................
Recortando e colando o convite do Fernando. Bah, rimou, dããã...Na foto, Ricardo Silvestrin.
Nos lemos lá.
PS: Dois posts no mesmo dia. Uau!

Leia-me




Se você

sente prazer

em me ler,

então seja eu

uma Bíblia Sagrada.

Tenha fé,

e me percorra,

em busca de Deus,

ou do Nada.


Mas se eu for em ti

um periódico,

até permito

que te deleites

com minhas imagens.

Nada metódico,

anote números

em minhas margens.

E depois

me abandone

ao esquecimento,

até desconjuntar-me o vento.


Eu quero mesmo

é ser em ti

um livro raro.

Que te admire

manusear-me

como eu fosse

teu privilégio.

Um artigo

dos mais caros,

uma homenagem

à memória,

um poema,

ou uma história.


E depois

de te entranhar

meu conteúdo,

antes do sono,

com cuidado

me descansar

no criado-mudo.


Laurene Veras
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Este é já antigo, li na República da Poesia na terça. Quem foi, foi, quem não foi...perdeeeeeeeeu!!!Então até a próxima edição, que eu aviso aqui. Parabéns à cúpula executiva da República da Poesia: Cacau Gonçalves, Renato de Mattos Motta e Alexandre Brito. Vocês hein?!Mazáááá!!! Bacana o Renato do Bahamas também, que apoiou o projeto, e que pelo jeito curtiu tanto quanto todos nós. A Manu ficou nos devendo um(ns) poema(s) em bom francês da próxima vez.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Resina




Morte silenciosa



A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada

Mia Couto

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Furiosa e efêmera




A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS



Encomendei esta caixa de madeira

Clara, exata, quase um fardo para carregar.

Eu diria que é um ataúde de um anão ou

De um bebê quadrado

Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.


Está trancada, é perigosa.

Tenho de passar a noite com ela e

Não consigo me afastar.

Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.

Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.


Espio pela grade.

Está escuro, escuro.

Enxame de mãos africanas

Mínimas, encolhidas para exportação,

Negro em negro, escalando com fúria.


Como deixá-las sair?

É o barulho que mais me apavora,

As sílabas ininteligíveis.

São como uma turba romana,

Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu deus, juntas!


Escuto esse latim furioso.

Não sou um César.

Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.

Podem ser devolvidos.

Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.


Me pergunto se têm fome.

Me pergunto se me esqueceriam

Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.

Há laburnos, colunatas louras,

Anáguas de cerejas.


Poderiam imediatamente ignorar-me.

No meu vestido lunar e véu funerário

Não sou uma fonte de mel.

Por que então recorrer a mim?

Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.


A caixa é apenas temporária.
Sylvia Plath
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina Cesar )
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mea Culpa



Penitência



Me perdoe, Pai,
porque pequei.


Pequei contra minha vontade,

violei minha liberdade.

Fiz tudo que todos queriam.

Fiz nada do que eu seria.

Fiz pouco da minha alegria.

Fiz do amor
agonia.


Perdoa, Pai,

e me dê

a penitência.

Para que eu possa,

em preces,

blasfemar contra Maria.

E seus filhos.

E os filhos de seus filhos.

Amaldiçoar a esmo

até chegar a mim mesmo

o perdão

que me concedo.


Laurene Veras

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Imagem, o Cristo de Dalí.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Molico




sustentas

sob tuas pálpebras

no mais dentro

do teu olhar

em um só tempo

chuva e vento

e um distante

sistema solar


Laurene Veras

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Este poema já foi postado antes, mas explico: Escrevi para minha irmã. E porque hoje ela está muito aconchegada no meu coração, e porque sim, é isso. Para Mauren Veras, minha pequena.

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A tira lírica é de autoria dela, para ver mais e melhor: http://www.tirasdamau.blogspot.com/

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Porto Poesia II

http://www.portopoesia2.blogspot.com/

Vide programação no blog e até lá!
;-)

Trinta e três




Desperdiço

o pulso

alguns vícios

outros sustos

duas ou três

insuspeitadas alegrias.


Esperando

para jogar os sapatos

aos corvos

e atravessar a neve descalça.


Diga trinta e três.


Ao fundo,

aquele

tango argentino.


Laurene Veras
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Mais um Klimt.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Apelo




Porque

não vens agora,

que te quero

E adias esta urgencia?

Prometes-me o futuro e eu desespero

O futuro é o disfarce da impotência....


Hoje, aqui, já, neste momento,

Ou nunca mais.

A sombra do alento é o desalento

O desejo o limite dos mortais.


Miguel Torga

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Dois Poemas Para Um Amor Bastante



Amor Bastante


quando eu vi você

tive uma idéia brilhante

foi como se eu olhasse de dentro de um diamante

e meu olho ganhasse

mil faces num só instante


basta um instante

e você tem amor bastante
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um bom poema

leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,

nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade, eu e você,

caminhando junto


Paulo Leminski
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Manuel

DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira
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Esse poema tá em tudo que é blogue, mas por isso mesmo, né, por que motivo não estaria no meu?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

ó

Amigos, o Duas Vozes deste sábado, que tá no post anterior, foi cancelado. Ok? CAN-CE-LA-DO.
De qualquer modo acredito que vá chover...A sugestão daí fica sendo Ainda Orangotangos do Gustavo Spolidoro, tá no Guion.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sábado



Sábado

13/09, às 14 horas

Rua do Livro

Riachuelo esquina com a Borges

poesia de Sidnei Schneider

pocket show de Zé Caradípia

aberto ao público.

Produção: Jornal Vaia

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Por tu mirada




Por quem foi que me trocaram

Quando estava a olhar pra ti?

Pousa a tua mão na minha

E, sem me olhares, sorri.


Sorri do teu pensamento

Porque eu só quero pensar

Que é de mim que ele está feito

É que tens para mo dar.


Depois aperta-me a mão

E vira os olhos a mim…

Por quem foi que me trocaram

Quando estás a olhar-me assim?

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Na foto, ELA. Jeanne Moreau.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Inventário do Irremediável




Mesa redonda Porto Alegre em Cena - Caio F. - 60 anos Foyer do Theatro São Pedro

Endereço: Praça Marechal Deodoro, s/ n°Centro - Porto Alegre - RS

Horário: 15h

Gilberto Gawronski (RJ) – Formou-se como ator na CAU - Casa das Artes de Laranjeiras. È um dos grandes diretores brasileiros, responsável por belíssimas montagens da obra de Caio Fernando Abreu.

Jeanne Callegari (SP) - Jornalista e escritora, colaborou em diversos veículos, como Bravo!, Superinteressante, Aventuras na História, Vida Simples, entre outros. Autora do livro Inventário de um escritor irremediável, da editora Soeman.

Luiz Arthur Nunes (RJ) - Dramaturgo, diretor e professor, tem mestrado em teatro pela Universidade de Nova York. Dirige o Núcleo Carioca de Teatro.

Marcos Breda (RJ) - Formado em Letras pela UFRGS e com mestrado em teatro pela UNI-RIO, é ator de teatro, cinema e televisão. É também locutor, dublador, professor universitário e produtor teatral.

Márcia Ivana de Lima e Silva (RS) – Professora de Teoria Literária do Instituto de Letras/UFRGS, Márcia é coordenadora do Arquivo Caio Fernando Abreu.

Dia 12 - 17h (após a mesa redonda) Lançamento e autógrafos do livro Caio Fernando Abreu, inventário de um escritor irremediável, de Jeanne Callegari.
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Quem enviou o convite foi o Eduardo Nasi, muito legal.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Maria, Maria...

Declaração de bens

Tenho um pequeno rebanho de ovelhas negras
que fazem miau.
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Prova de amor

E eu que aprendi a língua
dos gatos e dos cães,
das lebres e dos pássaros,
das peruas e das putas...
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Maria Helena Nery Garcez
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Esta eu trago sempre na lembrança do coração. E a poesia no coração da lembrança...Dá no mesmo?Será?
Um pouquinho mais desta Helena...
http://www.jornaldepoesia.jor.br/mgarcez.html

Alegria da Palavra na Palavraria


Aí gurizada, amanhã é sábado de Sidnei Schneider e Jorge Rein. 18:30 hs na Palavraria. Canja do Segala, coisa e tal, e o lugar, né, que por si também vale um passeio.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um epitáfio




Nel mezzo del camin...


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

E triste, e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha...


E paramos de súbito na estrada

Da vida: longos anos, presa à minha

A tua mão, a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.


Hoje, segues de novo... Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.


E eu, solitário, volto a face, e tremo,

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo.
(Poesias, Sarças de fogo, 1888.)


Olavo Bilac
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Foto linda de Gustavo Buriola.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

du Bocage



Epístola a Marília

Pavorosa ilusão de Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema de política opressora,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestável crença,
Que envenena delícias inocentes!
Tais como aquelas que o céu fingem:
Fúrias, Cerastes, Dragos, Centimanos,
Perpétua escuridão, perpétua chama,
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror horrível quadro,
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem d'um Deus quando quer faz um tirano:
Trema a superstição; lágrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co'a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inútil vênia
Espere às plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que às leis, que às propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessária,
Chama espantosos, voluntários crimes;
Que as vidas paixões que em si fomenta,
Aborrece no mais, nos mais fulmina:
Que molesto jejum roaz cilico
Com despótica voz à carne arbitra,
E, nos ares lançando a fútil bênção,
Vai do grã tribunal desenfadar-se
Em sórdido prazer, venais delícias,
Escândalo de Amor, que dá, não vende.

II

Oh Deus, não opressor, não vingativo,
Não vibrando com a destra o raio ardente
Contra o suave instinto que nos deste;
Não carrancudo, ríspido, arrojando
Sobre os mortais a rígida sentença,
A punição cruel, que execede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te adora, te incensa, e crê que és duro!
Monstros de vis paixões, danados peitos
Regidos pelo sôfrego interesse
(Alto, impassivo númen!) te atribuem
A cólera, a vingança, os vícios todos
Negros enxames, que lhes fervem n'alma!
Quer sanhudo, ministro dos altares
Dourar o horror das bárbaras cruezas,
Cobrir com véu compacto, e venerando
A atroz satisfação de antigos ódios,
Que a mira põem no estrago da inocência,
(. . .)
Ei-lo, cheio de um Deus, tão mau como ele,
Ei-lo citando os hórridos exemplos
Em que aterrada observe a fantasia
Um Deus algoz, a vítima o seu povo:
( . . .)
Ah! Bárbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lágrimas, de estragos,
Serena o frenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o império dos tiranos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De oprimir seus iguais com férreo jugo.
Não profanes, sacrílego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão válido,
É Deus de teu furor, Deus do teu gênio,
Deus criado por ti, Deus necessário
Aos tiranos da terra, aos que te imitam,
E àqueles, que não crêem que Deus existe.
(. . .)


Manuel Maria Barbosa du Bocage

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Este poema é lindo, mas pra bom entendedor melhor ler na íntegra: "Poesias eróticas, burlescas e satíricas", da Nova Aguilar. Introdução de Alexei Bueno.

Bocage e as Ninfas. Fernando Santos.

Quichiligangues

Clica na imagem pra visualizar melhor. E aparece lá, né?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Dices con la mirada/más de lo que crees*



Teus olhos tristes,parados
Coisa nenhuma a fitar...Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!

Fernando Pessoa
Das Quadras ao Gosto Popular
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* Jorge Drexler, "Raquel"
A imagem é Monet

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Memento Mori



Idêntica sorte:
Hospitais e igrejas
são sentinelas da morte.

Laurene Veras
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Capela dos Ossos, em Evora.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Partiu-se




"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu nas mão da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mim pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem porque ficou ali."

Alvaro de Campos
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O quadro é Dalí, como não poderia deixar de ser.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ausente



Não procura
no tempo
do meu olhar
(se me ausento)
o lugar
aonde estou.

-Eu estou dentro.

Laurene Veras

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Passou o Outono já, já torna o frio...
– Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
– E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha
.....................................

Porque é inverno, porque é Camilo Pessanha, e porque meu olhar é cansado.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Chuva de asas




CINCO ÚLTIMOS POEMAS PARA CRIS

1

Agora escrevo pássaros.

Não os vejo chegar, não escolho,

de repente estão aí,

um bando de palavras

a pousar

uma

por

uma

nos arames da página,

entre chilreios e bicadas, chuva de asas,

e eu sem pão para dar, tão somente

deixo-os vir. Talvez

seja isto uma árvore,

ou quem sabe,

o amor.


Tradução Sidnei Schneider, 2007

Julio Cortázar, Salvo el crepúsculo,

Buenos Aires, Ed. Alfaguara, 1996.

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Nem sabia que Cortázar escrevia poesia, se bem que não admira, mas ao contrário de um bom punhado de prosadores que se aventuram por essas veredas, não é que o cara manda bem mesmo? Só podia ser meu querido Julio! E para ele que gostava de gatos, na foto, Capitu.


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Uivando pelo pampa



Ó, lançamento da revista Coyote na Palavraria, sábado, 26/07. Vamos, né?Hein?Hein?
Na Vasco da Gama, 165. Bomfim.
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Quem tava na verbalada curtiu, quem não tava perdeu. Peço desculpas pela minha sofrível performance como interpréte dos meus poemas, mas sério, meu lance é escrever, fico tímida pra dizer poesia. Já sei, tímida eu, que piada, né? Mas nesse caso é fato. De qualquer modo, todo momento é o momento pra versejar, com ou sem performance. Valeu mesmo. Foi uma noite como muito poucas. Rara.
......................
Muito obrigada ao Fernando e Julia pelo convite, pela oportunidade, pela compania, as risadas, a cerveja. Por tudo. Obrigada ao Sidnei pelo Cortázar poeta e pelo Sidnei poeta.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

No rastro do verbo alado




Nessa quinta tem verbalada e tem também eu,Fernando e umas garatujas poéticas no Radar da TVE. Seis da tarde.
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um rastro de tristeza
No cerne do meu sorriso
Um quê de melancolia
Nos porões da minha alegria

Se canto
Ou danço
E de meus olhos vertem flores
Trago nas mãos cerradas
Pequenas cápsulas de dores

Beijos guardados nos bolsos
E suspiros de queixume antigo
Meu caminho é branco
E negro
Percorrido por passos ambíguos

Não temo
Nem sou coragem
Navio renegado à deriva
Sem nunca chegar à margem
Pássaro de asa quebrada
Perdido na tempestade

Dolores Davi
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Este é um dos favoritos da Érica. Saiu na Zero-Hora uma vez.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

VERBALADA



Verbalada
24/07, quinta, 20h30min
Pé Palito (rua João Alfredo, 577)
ingresso: $5

VERBALADA


Verbalada é a expressão de várias ações artísticas num mesmo paldo. Poetas falando música. Músicos falando poesia. Fotógrafos dizendo poemas. Cartunistas contando histórias. Cineastas pintando o verbo. Literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas, tudo a favor da festa do verbo.

A nova festa da cidade baixa. No Pé Palito a festa da palavra, a balada verbal. O verbo multiplicado, em transe, em trânsito, transformado e misturado, em transa com outras artes. O improviso, o diálogo e a aglutinação de expressões artísticas. O happening, o grito e o encontro das linguagens.


Verbo embalado, cantado, amplificado, visualizado, gritado, desenhado, dançado, rimado, não-rimado, pensado, anotado, demanchado, engraçado, requentado, inovado, zoado.

O verbo e balada.

Verbo metrificado, transformado, esgarçado, demasiado, pausado, entoado, sussurrado, divagado, embriagado, abalado, transtornado, esfomeado, apaixonado, tarado, transbordado, babado, vaiado, assobiado, relembrado, entornado, festejado, embalado.

A balada e o verbo. A balada certa.

Balada verbalizada, vociferada, payada, repaginada, desconcertada, rodopiada, embolada, pintada, sussurrada.

A balada do verbo.

Balada trovada, descabelada, encenada, urrada, embebedada, punkada, desconfigurada, encantada, suada, desafinada, hipnotizada, verbalizada.

Participação especial: AUTORES DA NÃO EDITORA


Convidados:


sidnei schneider

telma scherer

alexandre brito

ricardo silvestrin

marcelo benvenutti

gerusa marques

cris cubas

mary farias

laurene veras

miscelânia k. (alexandre missel knorre, lúcio chachamovich, carlos d'elia, dado silveira)

leandro dóro

everton behenck

pena cabreira

marcelo gobatto

valéria payeras

caco belmonte

marcelo cougo

diego dourado

felipe azevedo

richard serraria

bibiana carvalho

diego cemin bandeira

carmen salazar

coletivo 3daqui 2de lá

etienne blanchard

kurary

júlio saraiva

patrícia soso

rodrigo rosp

reginaldo pujol filho

antonio xerxenesky

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domingo, 13 de julho de 2008

To find a way


Hurt


Trent Reznor


I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

Chorus:
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt

I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

Chorus:
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt

I will let you down
I will make you hurt
If I could start again

A million miles away
I would keep myself
I would find a way

(pensando na versão de Johnny Cash)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

da tua Luz




Agora sabes que sou verme
Agora, sei da tua luz
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz
E eras assim ... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver ?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser ...
Mas, ora enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver ?
Olho, examino-me a tua epiderme
Olho e não vejo a tua luz !
Vamos que sou, talvez, um verme ...
Estrela nunca eu te supus !
Olho, examino-me a epiderme ...
Ceguei ! Ceguei da tua luz ?

(Pedro Kilkerry e Cid Campos)
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Munch de novo.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Au Revoir meu bem


Começa-se a morrer
No dia em que se nasce
E na vida se renasce
Vez por outra

Comecei a te perder
No dia de nosso primeiro beijo
(foi um desses renascimentos)
um beijo fragmento
de eternidade
teu beijo infinito de querer

agora, cada dia, penso e conto
quanto tempo vai ser esse encontro
quantos beijos nos resta ter
quanto de mim levarás contigo
quanto de ti ficará em meu ser.

Laurene Veras
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Klimt

sábado, 5 de julho de 2008

Sulamita




16 O meu amado é todo meu, e eu sou dele.

Ele é um pastor entre lírios.

17 Antes que expire o dia e cresçam as sombras,

volta, meu amado,

– imitando a gazela ou sua cria –,

para os montes escarpados!


1 Em meu leito, durante a noite,

busquei o amor de minha alma:

procurei, mas não o encontrei.

2 Hei de levantar-me e percorrer a cidade,

as ruas e praças,

procurando o amor de minha alma:

Procurei, mas não o encontrei.

3 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade.

Vistes o amor de minha alma?

4 Apenas passara por eles,

encontrei o amor de minha alma:

agarrei-me a ele e não o soltarei

até trazê-lo à casa de minha mãe,

à alcova daquela que me concebeu.

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Cântico dos Cânticos, Antigo Testamento.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Exílios


Nada resta

Só ausência dolorida

Só vazio e deserto

Aridez e aspereza

Sou passante circunspecto

Prisioneiro da tristeza


Trago um mudo desespero

Um grito não proferido


Um anônimo no desterro

chorando a morte do amigo


Não tenho mais sonho algum

Nem pele,nem coração

Sou apenas um espelho

Refletindo escuridão.

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Laurene Veras
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O quadro é do Munch.É, aquele Munch.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pasárgada de nós


Quando era criança ouvia este mesmo som na casa de meus avós. A casa poucas quadras da praia, ainda não havia a cadeia de arranha-céus para nos separar do mar que vinha no vento. Adormecia ouvindo o marulho, coisa mágica, uma fera com cheiro de maresia, e invariavelmente imaginava se quando o sono me vencesse todas as criaturas encantadas que viviam nas flores do jardim despertariam e seriam os donos da noite, zombando do meu ressonar indefeso de criança. Lia os gibis de vampiros do meu primo e misturava os sonhos, fadas, duendes e vampiros habitavam ali, mas não havia o que temer, o rugido terrível do mar os mantinha na linha, monstro muito maior, dono daquelas bandas.

Hoje nenhum de nós tolera passar pela esquina da infância. A casa não está lá. Da última vez, apenas entulho. É dor mesmo, dói uma dor estranha, aguda, como se embaixo dos escombros estivesse a nossa infância, a vó preparando figos em calda, as criaturas do jardim adormecidas, o rugido do mar a nos proteger da passagem do tempo. Pasárgada de nós.
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Imagina, uma casa de praia com lareira. E que frio no inverno! Pegávamos os pentes da vó e ficávamos em volta dos velhos penteando os pelegos, uns pelegos horrorosos que ficavam no chão, coisa dos anos setenta, tingidos de laranja e azul. Penteávamos o cabelo fininho e delicado da vó também, era permitido ficar ali, desde que não se desse um pio na hora da novela, só pentear pelegos, ou então brincar em outro lugar.

Casa de praia com lareira, uma vez apareceu um pinguim na praia, não sei ao certo como mas o bicho virou mascote da casa. Dizem que era muito mal humorado. Pudera, tão longe dos outros pinguins!Quando morreu, empalharam, e o pinguim que passara boa parte da vida em lugares gelados foi passar a eternidade ao lado da lareira. Imagino que agora, na sua imobilidade de coisa que não é, andava ainda mais irritado. Era grotesca aquela coisa morta no meio da sala, mas naquela casa nada era comum, tudo extraordinário. Havia também uma bóia chinesa, diziam que havia aparecido na praia, uma enorme esfera de vidro verde escuro, do tamanho de uma bola de basquete, amarrada com nós complicados e bonitos a uma corda arrebentada. Pesava o diabo.

(Eu perguntava ao pai de onde saía o vento, e ele dizia que de um buraquinho no céu.)

Por que a vó mantinha aquelas coisas...O vô era uma pessoa doente, e ela uma senhora muito alta, muito branca, dedicada, mas triste, eu acho. A vó não era dona da casa, a casa é que a possuía, fazer figos em calda, cuidar do vô, do jardim, engendrar armadilhas para os gambás, sempre aguardando pelo verão ou por feriados quando a casa se enchia de nós, ficava repleta de nós.

Alimento a fantasia de que secretamente, daquele jeito muito paciente e atencioso de vó, ela aguardava pra um dia empalhar o vô, coloca-lo eterno ao lado da lareira, e seguir o rugido da fera, voltar para o oriente, onde havia bóias que pesavam como âncoras, vento fresco de mar, e quem sabe, pinguins viajantes pelo caminho.
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Laurene Veras
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Na foto, minha avó, Herta Mury, em mil novecentos e trinta e poucos.

domingo, 29 de junho de 2008

Nadie




Samba em prelúdio


(Baden Powell e Vinícius de Moraes)


Eu sem você não tenho porquê

Porque sem você não sei nem chorar

Sou chama sem luz, jardim sem luar

Luar sem amor, amor sem se dar
Em sem você sou só desamor

Um barco sem mar, um campo sem flor

Tristeza que vai, tristeza que vem

Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

Ah, que saudade

Que vontade de ver renascer nossa vida

Volta, querida

Os meus braços precisam dos teus

Teus braços precisam dos meus

Estou tão sozinho

Tenho os olhos cansados de olhar para o além

Vem ver a vidaSem você, meu amor, eu não sou ninguém

Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sem desculpas pra ficar em casa!


DUAS VOZES - música e literatura
Conversa e pocket show com
SÍLVIO MARQUES E RICARDO SILVESTRIN
Dia 28 de junho, sábado, 14h30
Livraria Nova Roma (rua Gen. Câmara, 394, telefone: 30134535)
Entrada franca
Produção: jornal Vaia (http://www.jornalvaia.com.br/)
Apoio: Sintrajufe
Mais informações: jornalvaia@gmail.com e 51-9892-3603


Smells like...


Órfão do Kurt Cobain?

Seus problemas acabaram!


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Afrodite




Eu quero as tuas horas

Teus dias

Quero todo teu espaço

Quero a tua alegria

E também o teu cansaço

Quero teus olhos nos meus

E todos os teus pensamentos

Quero ser eu no teu eu

Eu quero voar no teu vento.


Laurene Veras
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Este blog tá remando, esperem até eu estar com bunda larga, digo, banda larga. É pra ontem!
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A figura, manjada mas sempre linda, detalhe de O Nascimento de Vênus, de Botticelli.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Vamos passear de camelo?

Isso que dá postar correndo. Não fosse a Teresa me avisar meu post anterior continuaria com a data só 3 anos atrasada! Mas tá valendo ainda, o passeio ciclístico em defesa do Morro do Osso vai acontecer sim, nesse domingo, sai do Parque Marinha do Brasil, e maiores informações vê se corre atrás porque eu tô tri atrasada, de noite coloco o serviço completo no ar.
:-p

terça-feira, 3 de junho de 2008




Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

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Tô meio ausente, mas tô por aí. Este poema é batido mas é um clássico sempre, não tem como não pensar nele em dias de "assim-assim".

sábado, 24 de maio de 2008

Ruffato no Rascunho




Antes que eu me esqueça:
O Luiz Ruffato inaugurou uma coluna no Rascunho. Passa lá pra conferir, tá?
http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=59&ordem=1895

Moonlight



Nem tanto à terra
Nem tanto ao mar
Entretanto
o luar.


Laurene Veras

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A foto é super-hiper-amadora, mas pô, da minha janela, do centro de Porto Alegre, com uma cyber shot de celular de 1.0 megapixel sem zoom, dá um desconto, né?
Ô mané, já te deu conta de que em outros idiomas normalmente se diz "luz da lua"? Luar é praticamente um verbo, é o que a lua faz, a lua faz "luar", sacou? Só mesmo através da última flor do Láscio!
O que a lua tá fazendo hoje?
Tá luando...