segunda-feira, 31 de março de 2008

Epitáfio para um sátiro


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".


Bocage
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O nome soa afrancesado, mas era português mesmo. Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage, viveu entre 1765 e 1805 e era um poeta de verve mormente satírica. Divertida, ferina, erótica, mas comprometida com o desvelamento da hipocrisia por trás dos "bons costumes", Bocage cantava o que a maioria só tem a cara-de-pau de cometer e a coragem de esconder.
Não se deixe levar pela picardia dos poemas mais leves. Bocage também é capaz de nos fazer refletir com certa profundidade. Sem tempo agora, fico devendo um lindo poema no qual ele tenta convencer uma donzela, através de inteligente argumentação, que o amor carnal é divino, diferente das tintas demoníacas com as quais era pintado. Esse poema é belo, arguto, e como não poderia deixar de ser, safado.
Quer saber mais? E organizado e comentado pelo Glauco Matoso? Basta clicar aqui.
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Sátiros e Ninfas, gravura de João Werner.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Leminski


Eu


eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

Paulo Leminski

terça-feira, 25 de março de 2008

Poética feita de Filosofia e Bigode


"Reza uma antiga lenda grega que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio Sileno preceptor e servidor do deus Dioniso. Quando por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre todas as coisas era a melhor e o mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, Sileno calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:

"Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.""

Nietzsche em O Nascimento da Tragédia.

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Na foto genial: Com o relho na mão direita, Lou Salomé, grande paixão de Nietzsche. No meio, Paul Rée, amigo de Nietzsche e também apaixonado por Salomé. E por último mas não menos importante, nosso amigo bigodudo. Por sinal, Lou Salomé deixava um rastro de corações partidos por onde passava, tinha um séquito de ilustres admiradores. Há uma biografia dela por aí, não posso avaliar, não li, mas para quem gosta do gênero parece interessante, pois ao que tudo indica, inclusive Nietzsche, Rée e Rilke, ela era interessante. Clica aqui pra conferir.

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Para quem nunca leu, mas gostaria de conhecer a obra de Nietzsche, vou dizer uma coisa que meus professores certamente condenariam: Vou indicar um comentador pra começar, porque o Nietzsche merece um prólogo e, sinceramente, os leitores incautos também. Leia "Nietzsche e Para Além de Bem e Mal", do Oswaldo Giacoia Junior. Editora Jorge Zahar. É um livro de valor e linguagem acessíveis, o Giacoia o maior especialista em Nietzsche no Brasil. Tive a oportunidade de ouvi-lo em uma palestra e o cara é o tipo de acadêmico que honra a cátedra, por sinal, é professor da UNICAMP. Erudito mas não empolado, não precisa arrotar em latim pra mostrar que é o cara, porque ele é mesmo.

Depois dessa introdução, começa pelo "Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo", do próprio N., porque essa obra tem as sementes da futura filosofia nietzscheana, e é um livro sobre estética, muito bonito. Da Companhia das Letras.

Para os desavisados, um alerta: Nietzsche não era, nunca foi anti-semita. Se fosse, eu não recomendaria os livros dele, ok?

A parábola que abre este post se refere à finitude e fragilidade humanas diante da força e da imortalidade e liberdade pagãs de Sileno e Dioniso.

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Então tá valendo, era meio tralálá para alguns, gênio para outros. Para mim, um escritor único, que construiu, acredite, uma poética feita de filosofia.


segunda-feira, 24 de março de 2008

Eros


Para Ricardo Reis
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Teus olhos negros: todas as coisas.

Profundo segredo abissal.

Teus lábios que colhem qual foices

vontades de ardor ancestral.

Tu és tão sonho absurdo

que tudo

parece outro mundo:

As palavras virando do avesso,

o verso se tornando mudo.


Laurene Veras

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Eros e Psiquê, escultura de Antônio Canova.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sereia louca que deixou o mar


Fim

Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes,

Façam estalar no ar chicotes,

Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza...

A um morto nada se recusa,

Eu quero por força ir de burro.


Mário de Sá Carneiro

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Uns dizem que é modernista, outros que é simbolista, eu penso que ele é genial e quase impossível de se classificar. Prosa de substância quase inefável. Almejava alcançar o transcendente através da arte. Amigo de Fernando Pessoa, boêmio, um outsider, planejou com minucias o próprio suicídio.Pretendia fazer também da morte uma obra de arte. Os poemas são belíssimos, "Céu em Fogo" uma coletânea de novelas perturbadoras, "A Confissão de Lúcio" uma festa para a imaginação."A Loucura" e "O Incesto". Tem mais, mas ainda não li, então se coça e corre atrás.

terça-feira, 18 de março de 2008

Carros de bois, russos geniais e...Macela!



Tocar a vida.

Como se a vida fosse um carro de bois.

Como se houvesse pressa pra depois.

Como se em frente houvesse algo a me guiar.



Olhar adiante.

E por que motivo eu haveria de olhar pra trás?

O que foi bom, já passou, não volta mais.

E o mal é impossível de apagar.


Continuar.

Como se sempre tudo fosse uma coisa só.

A vida, um bicho comprido de dar dó.

Que não se via nem o começo, nem o fim.

Mas não é contínuo esse chão por caminhar,

é ladrilho raro, caleidoscópico, um mosaico.

Cada pedaço um passo certo ou um em falso,

e cada passo um olhar pleno de cansaço.



Laurene Veras

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Muitos anúncios por um dia, né? Então encerro a semana com um poema, para esse blog não ficar parecendo com classificados. Quanto ao poema eu não vou comentar, seguindo o princípio de não comentar meus próprios poemas, mas ele me lembrou de um conto do Guimarães Rosa em que os bois conversam. É um conto triste e trágico, mas cheio da magia sertaneja que só o Rosa. Dá uma conferida, tá no livro Sagarana. Como eu não lembro o título do conto agora acho que você vai ser obrigado a ler o livro inteiro, ririri! Oh não, quanto sacrifíco!
Podia ser pior. Eu podia indicar o Almas Mortas do Gogol. E agora você vai ficar curioso e vai querer ler Almas Mortas pra saber por que diabos de algum modo indicar este livro poderia ser confundido com um chiste....
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Tô encerrando a semana porque na quinta vou pra São Francisco de Paula, para o Festival da Colheita da Macela. Não, não é um festival sobre chá! É um encontro de motociclismo, rock e...macela! Bã, mais um anúncio! Se você não gosta de motos, nem de rock, rodeio, pescaria, faz como eu: Dá um pulinho em São Chico pela beleza da cidade, pra descansar um pouco, pra ver paisagens e pessoas diferentes.
Enfim, programação abaixo:

20 e 21 de março, quinta e sexta-feira
9h às 17h - Feira do Peixe, na Praça Podalyro Alves da Silva
22h às 6h – Encontro Motociclístico da Colheita da Macela 2008, no palco principal da avenida Júlio de Castilhos, na esquina com a Assis Brasil
22h às 23h30min – show com a banda Desvio Padrão
24h à 1h30min – show com a banda Kid Cegonha
2h às 3h30min – show com a banda Ballantine’s
4h às 5h30min – show com a banda PopCorn
23h às 5h30min – show com a banda Nova Fase, na avenida Júlio de Castilhos, esquina com a Barão de Santo Ângelo
4h às 14h – 4° Passeio Noturno da Colheita da Macela, saída do Posto Quality (Charrua)
5h30min às 9h – Cavalgada da Colheita da Macela, em Lajeado Grande (fone para contato: 54-3504-2547)
2h30min às 3h30min – apresentação da Equipe Motoshow – Só Zerinho, na rua Benjamin Constant.

22 de março, sábado
14h às 18h – Premiere de Som Automotivo, na rua Benjamin Constant
16h às 17h30min – Arte e Equilíbrio, na rua Benjamin Constant
23h30min às 6h – Festa da Colheita da Macela com a Pop Rock, com Ramiro Ruschel, na Sociedade Cruzeiro.

23 de março, domingo
9h às 17h30min – Campeonato de Som Automotivo, Rebaixado Tunning – Oficial Sul Bass, na rua Benjamin Constant
14h30min – apresentação da Equipe Alto Risco – Free Style, na rua Benjamin Constant.

FestiPoa



Seguinte: O Vaia está organizando uma Festa da Literatura e vai ser muuuuuuuuito legal. Um encontro em Porto Alegre, sobre Literatura nas suas mais diversas formas, e convidados de vários lugares e estilos diferentes abordando o universo das Letras. O homenageado é professor Donaldo Schüler. Além de debates e afins também vai rolar Sarau, enfim, é uma festa mesmo, uma festa temática e o tema é a Literatura. Nos lemos lá, quero dizer, nos vemos lá(ok,infame...). A abertura é em 27 de março, quinta. Para mais detalhes sobre as mesas, horários e convidados, clica aqui. E parabéns ao Fernando e cia pela iniciativa e esforço, porque vamos combinar, reunir as pessoas pra falar/fazer arte não é assim tão fácil, além de vontade requer esforço e iniciativa. Viva Vaia, uebaaaaaa!!!
Acima o convite do Sarau do evento, na sexta. Clica nele pra visualizar melhor.

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Divulgando um dos eventos que acontecerão no FestiPoa:

O QUÊ: OFICINA NARRATIVAS BREVES (E OUTRAS NEM TANTO)

QUEM: MARCELINO FREIRE

QUANDO: 28 DE MARÇO (SEXTA-FEIRA), DAS 14H30MIN ÀS 17H30MIN E 29 DE MARÇO (SÁBADO), DAS 10H ÀS 13H.

ONDE: ESPAÇO CULTURAL CASA DOS BANCÁRIOS - RUA GENERAL CÂMARA, 424/4º ANDAR, CENTRO.

QUANTO: R$ 80,00 (À VISTA).

INSCRIÇÕES ABERTAS PELOS TELEFONES 3407 8223 E 98224066 OU POR E-MAIL (casaverde@casaverde.art.br).


segunda-feira, 17 de março de 2008

Poema Triste


Meu poema

é antiquado,

nasceu quadrado.

Tristes palavras

escapam de mim...

Angústia assim,

só no vazio

do branco papel.

O meu verso

é um anjo roto

caindo do céu.


Laurene Veras
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Escultura: "Pensamento", de Auguste Rodin

sexta-feira, 14 de março de 2008

Patativa


Aos Poetas Clássicos



Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.


Patativa do Assaré
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O nome dele era Antonio Gonçalves da Silva, mas se chamava mesmo Patativa do Assaré. Patativa é uma ave cantora e Assaré a cidade natal, no Ceará. Diz a biografia que frequentou a escola por apenas quatro meses, o que não o impediu de enriquecer a poesia de cordel nordestina com versos como este: Inteligentes, questionadores e de um lirismo puro, não no sentido de ingênuo, o Patativa não era ingênuo, é puro de ser verso com linhagem mesmo, verso com pedigree, de ser verso herdeiro dos versos de trovadores medievais.
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Foto do Diário do Nordeste


Demasiado Humano



Dualismo

"Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, entre maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando mum vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora."

Olavo Bilac

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Sempre que começa aquela interminável mas também inevitável discussão sobre o bem, o mal, a humanidade, deus e etc., eu cito este poema. Este poema me exime de argumentar sobre o assunto. E pra quem é cri-cri eu lanço o desafio: Disserta sobre a natureza humana com mais precisão e delicadeza!
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O quadro se chama Mermaids, de Gustav Klimt. É, aquele mesmo, do famigerado O Beijo.


terça-feira, 11 de março de 2008

Efeméride



O poema breve:
Palito de fósforo.
Explode num leve
rumor de luz
bruxuleante.
Palavra acesa,
escreve
nas trevas do instante.
Fugaz, descendente.
Estrela cadente.

Laurene Veras

Marítimo

Vida, me arrasta pelo mar revolto

Me leva para onde está minha sorte

Se está mais para leste ou mais para norte

Me leva para longe, de onde eu não volto


A angústia é meu barco, meu mastro, meu leme

O vento e as velas da minha empreitada

No céu não me querem, na terra o chão treme

Destino, é no mar que vai dar minha estrada


Tantas vezes naufrágio, outras tantas fome e frio

Sob sol implacável ou a mais vil tormenta

Sem ilha nem bote, só o mar , o vazio

E a desesperança que a morte fomenta


Vida, me leva, me faz folha no vento

O lugar não importa, me leva pra longe

Quero ser só areia ou só pensamento

Nem que eu seja só o limo da água da fonte



Laurene Veras


O Horror!O Horror!




Tava falando antes sobre as personalidades argentinas que não são naturais da Argentina e me deparei com o meu querido Conrad. Um dos maiores escritores da língua inglesa, e era polonês, né?Leiam, leiam! É sempre uma aventura, goste você de histórias sobre o mar ou prefira as que falam dos recônditos da alma humana. Mas se você nunca leu, humildemente sugiro não começar pelo famigerado Coração das Trevas, aquilo que já falei sobre a vertigem... Maravilhoso.E terrível. Aliás, sobre este pesadelo na selva eu estava lendo em um ensaio do Mario Vargas Llosa, que conta que O Coração das Trevas se passa durante o domínio tirano de Leopoldo II no Congo. Leopoldo II foi um louco genocida belga(mais um para a cada vez mais impressionante coleção dos medonhos feitos humanos)que exterminou nada menos que metade da população nativa do Congo(milhões de pessoas) por causa do precioso marfim. Linha de Sombra, também do Conrad, é mais leve. Mas de modo algum superficial.
E sabe do que mais? Leia todos! Pronto, falei.
Ah sim, o livro de ensaios do Vargas Llosa: A Verdade das Mentiras
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Falando em Conrad, que era navegador, lembrei do Maugham. Histórias dos Mares do Sul, de William Somerset Maugham. Dei para o meu pai, só porque ele gosta de barcos, de mar e de histórias. Não sei se ele leu, mas se não leu aceito de volta, porque este eu gosto de reler de vez em quando.
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O Fio da Navalha não tem a ver com aventuras marítimas, mas é quase tão montanha-russa quanto. Romance de formação, o jovem Larry sai em busca de si mesmo por terras e experiências estranhas. E o resultado dessa demanda na alma do herói respinga na nossa, e as marcas são para sempre. Também escrito pelo Maugham.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Poema e foto

Foto: Viviane Gawazee

Ser um sobressalto
de chegada.
Basta de tristes partidas,
de estradas
interrompidas.
Basta.

Querer apenas uma prece,
um oriente.
Basta da noite longa:

-Hoje quero ser nascente.

Laurene Veras
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sexta-feira, 7 de março de 2008

Ombro a ombro



Benedetti é poeta, romancista e jornalista. Uruguaio, inimigo ferrenho da ditadura, tem poemas bastante ideológicos, mas sempre a beleza que busca o combate justo, a liberdade e a fraternidade. E também um erotismo puro, às vezes o amor angustiado em meio às dificuldades da repressão, mas sempre lírico e sempre forte.
Há um texto teatral de autoria de Benedetti que tenho dificuldade de encontrar, mas para quem se interessar é uma dica valiosa. "Pedro e o Capitão". Dois personagens, Pedro e o torturador. De se ler de joelhos. Gostaria de ver uma montagem desta peça, é de arrepiar.

Te quiero

Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.


Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.


Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.


Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.


Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.


Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.


Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Mario Benedetti

O poema, ela e os gatos

Para minha irmã Mauren

sustentas
sob tuas pálpebras
no mais dentro
do teu olhar
em um só tempo
chuva e vento
e um distante sistema solar

Laurene Veras
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Como está dito, é sobre coisas belas, gatos são belos, então para quem gosta basta clicar aqui.
Falando nisso, minha irmã também é bela, e além disso talentosa, então clica aqui.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Como uma lua na água



O capítulo 7 de O Jogo da Amarelinha você encontra facilmente na web, é um texto muito popular. Fica portanto, para quem conhece e para quem não, o convite pra conhecer a obra do escritor argentino. Sugiro começar pelos contos para prevenir-se da vertigem do romance "Jogo da Amarelinha". Mas se você for intrépido, toca ficha que não vai se arrepender. Há um romance controverso, chamado Os Prêmios. Controverso para mim porque me pareceu escrito por um Cortázar diverso do que eu conhecia. Este romance me assombrou durante anos, até que ano passado em uma palestra sobre Kafka um professor argentino justificou meu incômodo: Os Prêmios é um Cortázar kafkiano.

Na foto, Cortázar com sua gatinha Flanelle.

Alguns livros de contos de Julio Cortázar:

Todos os Fogos o Fogo
As Armas Secretas
Histórias de Cronópios e Famas
Bestiário

Uma coisa interessante(ou não). Os argentinos parecem sofrer de uma exótica perseguição da casualidade. Alguns de seus grandes nomes das artes não nasceram exatamente na Argentina. Cortázar nasceu na Bélgica. Borges na Suiça. E o próprio Gardel, juram os uruguaios, teria nascido no Uruguai.
Abaixo, o capítulo 7.
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Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar (capitulo 7 - O Jogo da Amarelinha)

quarta-feira, 5 de março de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2008

Dois Poemas e um gato



Não esperei o céu ficar negro.

Não vi o anoitecer.

Olhava o crepúsculo colorido esmaecendo,

esperava a escuridão.

De repente uma estrela brilhou na terra.

Perdi o milagre.

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Um gato dormindo:

Tudo que eu queria ser

no domingo.


Laurene Veras

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Quadro de Romero Brito.

O avesso do avesso

Dizem que para todas as coisas existe um contrário.Mas estes contrários não são tão óbvios quanto possa parecer.O contrário do riso, por exemplo, é uma pipa presa em uma árvore.Não há no mundo coisa mais triste que a imagem uma pipa abandonada, enroscada em uma árvore.
Laurene Veras

Soares de Passos e a Noiva Cadáver





Soares de Passos foi um poeta romântico português muito lido na sua época. Eu adoro esse poema porque fora de contexto acho-o engraçadíssimo, aquele exagero, aquela dramaticidade romântica a qual observada com olhos contemporâneos fica caricatural. Era um poema tão conhecido que todos o recitavam de cor em seu tempo. Conheci este poema em uma leitura em sala de aula. Quando acabamos a leitura em voz alta, não contendo meu senso de humor inoportuno, comentei com a professora que não conseguia deixar de imaginar o Zé do Caixão recitando a peça. A professora ficou entre escandalizada com a heresia e divertida com a possibilidade. Brincadeiras à parte, é realmente muito bem construído, muito melodioso, minuncioso e imagético. Mas imagina, numa versão tipo noiva cadáver, o Tim Burton montando uma ópera rock sobre ele...

O Noivado do Sepulcro

Balada

Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soouu;
Que paz tranqüila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na mormórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre os ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei de amar,
Por que atraiçoas, desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?

Amor! engano que na campa finda,
Que a morte despe da ilusão falaz:
Quem dentre os vivos se lembrara ainda
Do pobre morto que na terra jaz?

Abandonado neste chão repousa
Há já três dias, e não vens aqui...
Ai, quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!

Ai qão pesada me tem sido!"e em meio
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que rindo dos prostestos nossos,
Gozes com outro d'infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra sem vingança ter!"

— "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,
Responde um eco suspirando além...
— "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.
Longas roupagens de nevado cor;
Singela c'roa de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
Vês este peito? reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas ainda pulsa com amor por ti.

Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, sucumbindo à dor:
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?

Saudosa ao longe vês no céu a lua?"
— "Ó vejo sim... recordação fatal"
— Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.

Ó vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
Quero o repouso do teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios co cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletdos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

Soares de Passos
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A Noiva Cadáver
De Tim Burton
Animação
Dublagem de Johnny Deep, música de Danny Elfmann, enfim, um Tim Burton Clássico. E tudo a ver com o poema.

Nossas Asas






Para Everton Costa

Minhas asas são mais que duas

Vem,vamos voar sobre luas

E repousar nas montanhas

Fujamos das artimanhas

Das máscaras e das razões

Sejamos o gás dos balões

As luzes das tempestades

A força dos furacões

As cores dos fins-de-tarde

Restemos no pó das estrelas

E no calor das querelas

Ilusões e concretudes

Percamo-nos na amplitude

Em florestas de lendas antigas

Em estórias que estão por contar

E também nas que já foram lidas

Surjamos nos restos do fogo

E façamos tudo de novo

Burlemos o tempo,inclusive

Querendo pairar sobre todos

Zombando de como se vive.


Laurene Veras

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A foto é minha, feita com o celular, a mesma do cabeçalho do blog. No Guaíba, claro.

Rosinha si eu te falasse...




Este poeta pernambucano foi minha irmã quem me apresentou, e por isso sou muito grata.


Kremmesse


Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.


Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.


Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.


E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?


Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.


— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.


E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.


Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.


Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.

Olegário Mariano
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O quadro é de Romero Brito, outro pernambucano. Amo o trabalho dele, é muito lindo. Dá uma espiada, clica aqui.

Pessoa




Tava demorando pra postar um Pessoa, né?Claro que não pode faltar. Mas optei por um poema que considero bem sui generis em relação ao resto da obra, me soa político de um modo pouco comum em Fernando Pessoa. E é tristíssimo. Além disso, um daqueles que fala de uma humanidade que sempre foi, assim é, e sempre será. O flagelo da guerra de um modo terrível e delicado, como só um inigualável poeta, que foi vários, poderia conceber.


O Menino da Sua Mãe


No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

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Esta caricatura encontrei ao acaso, assina Biratan. Belo desenho.

+ um




Meu olhar é de neve sobre as coisas.
Gelado, se derrama
e vira lama.


Laurene Veras
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O desenho é do artista plástico gaúcho Mopho Del-Rey

domingo, 2 de março de 2008

Ciranda do Esquecimento






Quando chegar o tempo da minha morte,

o me lamente.

o me deseje sossego.

Por favor, não diga:

– Que descanse em paz.



o estarei dormindo na rede,

mas estirado em uma cova!

o inerte... Inexistente.

Um cadáver contumaz.



o me vele, não me evoque,

o me cite em preces.

o peça por minha alma.

o chore por ter saudade,

e num lapso de caridade

esqueça-me, docemente.

o se exceda, tenha calma.

Eu já não existirei.



Quando eu me for sem ter volta

cante uma antiga cantiga de roda:

diga um verso bem bonito

diga adeus e vá embora".


Laurene Veras
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Como era de se esperar, sim, eu escrevo. Em Porto Alegre você sacode uma árvore e de 10 pessoas 4 são jornalistas, 4 são publicitários e as outras duas são de qualquer outra área. Deste total, pelo menos nove escrevem. E cá estou eu no fluxo da boiada...De qualquer modo, por essas e por outras gosto muito daqui. Este poema foi publicado da edição especial de poesia do Jornal Vaia.
O quadro se chama "Garota em frente ao espelho", de Pablo Picasso.

Do livro "Só"




Memória

Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com tôrres e pontes.

Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.

Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!

Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.

Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.

Ó mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!

Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado.

(E abria o menino seus olhos tão doces) :
"Serás um Príncipe! mas antes. . . não fôsses."

Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve dar um passeio.

Calçou as sandálias, toucou-se de flôres,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
"Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
Antônio, e já volto. . . " E não voltou ainda!

Vai o Espôso, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.

Ó homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!

Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fôra, por êles voltei.

E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!

Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi êstes carmes que eu compus no exílio,

Ouvi-os vós todos, meus bons Portuguêses!
Pelo cair das fôlhas, o melhor dos meses,

Mas, tende cautela, não vos faça mal. . .
Que é o livro mais triste que há em Portugal!

António Nobre

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"É o livro mais triste que há em Portugal". Se não o mais triste, talvez um dos. Se bem que em se tratando de Portugal falar em melancolia é chover no molhado, pirulin lulin lulin. Lindo, tão triste quanto o poema que Manuel Bandeira dedicou ao mestre simbolista português:

A Antonio Nobre

Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:

Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino?
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu à Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...
Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

Manuel Bandeira
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Quintana também escreveu um poema em homenagem ao Nobre, belo e triste como o de Bandeira, forte, e indicativo daquele Quintana ao qual eu estava me referindo, de letras magoadas, de poesia ácida. Felizmente isto não é uma tese acadêmica, então o poema do Quintana fica para o próximo post. Aos poucos vou pegando a manha desse bicho chamado blog e as coisas vão começar a fazer sentido. Ou não.
Falando nisso e naquilo:

Céu de Lisboa (Lisbon Story)
De Wim Wenders
Não é um filme. É um poema, procure a poesia na película e terá valido a pena. Fique preso ao conceito ordinário de cinema e o filme não terá pé nem cabeça.


Pirulin lulin lulin

Em cima do meu telhado
Pirulin lulin lulin
Um anjo todo molhado
Soluça no seu flautim

E chove sem saber por que
E tudo foi sempre assim
Parece que vou sofrer
Pirulin lulin lulin
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Este é um dos meus poemas favoritos do Mário Quintana.
Este é um espaço de poesia, dentre outras coisas, e uma coisa sobre a qual eu sempre quis escrever é sobre o fato de eu não considerar o MQ um "poetinha", que escreve "versinhos", poesia leve, fácil, ingênua. Quintana fazia uma poesia boneca russa, uma poesia que se desdobra, mas não facilmente, não na obviedade, há que se ler Quintana atentamente, por trás do poema inofensivo um animal ferido e magoado, prestes a se tornar violento, às vésperas de marcar o leitor com profundidade e melancolia, e a cicatriz é bela. A análise do poema eu deixo para os acadêmicos, posso voltar a falar nele, mas isso num próximo post.