domingo, 2 de março de 2008

Do livro "Só"




Memória

Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com tôrres e pontes.

Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.

Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!

Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.

Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.

Ó mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!

Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado.

(E abria o menino seus olhos tão doces) :
"Serás um Príncipe! mas antes. . . não fôsses."

Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve dar um passeio.

Calçou as sandálias, toucou-se de flôres,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
"Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
Antônio, e já volto. . . " E não voltou ainda!

Vai o Espôso, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.

Ó homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!

Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fôra, por êles voltei.

E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!

Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi êstes carmes que eu compus no exílio,

Ouvi-os vós todos, meus bons Portuguêses!
Pelo cair das fôlhas, o melhor dos meses,

Mas, tende cautela, não vos faça mal. . .
Que é o livro mais triste que há em Portugal!

António Nobre

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"É o livro mais triste que há em Portugal". Se não o mais triste, talvez um dos. Se bem que em se tratando de Portugal falar em melancolia é chover no molhado, pirulin lulin lulin. Lindo, tão triste quanto o poema que Manuel Bandeira dedicou ao mestre simbolista português:

A Antonio Nobre

Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:

Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino?
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu à Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...
Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

Manuel Bandeira
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Quintana também escreveu um poema em homenagem ao Nobre, belo e triste como o de Bandeira, forte, e indicativo daquele Quintana ao qual eu estava me referindo, de letras magoadas, de poesia ácida. Felizmente isto não é uma tese acadêmica, então o poema do Quintana fica para o próximo post. Aos poucos vou pegando a manha desse bicho chamado blog e as coisas vão começar a fazer sentido. Ou não.
Falando nisso e naquilo:

Céu de Lisboa (Lisbon Story)
De Wim Wenders
Não é um filme. É um poema, procure a poesia na película e terá valido a pena. Fique preso ao conceito ordinário de cinema e o filme não terá pé nem cabeça.


Um comentário:

Guilherme disse...

oi prima... to te vsitando.... toda poética essa gata... bjos... Guilherme