segunda-feira, 31 de março de 2008

Epitáfio para um sátiro


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".


Bocage
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O nome soa afrancesado, mas era português mesmo. Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage, viveu entre 1765 e 1805 e era um poeta de verve mormente satírica. Divertida, ferina, erótica, mas comprometida com o desvelamento da hipocrisia por trás dos "bons costumes", Bocage cantava o que a maioria só tem a cara-de-pau de cometer e a coragem de esconder.
Não se deixe levar pela picardia dos poemas mais leves. Bocage também é capaz de nos fazer refletir com certa profundidade. Sem tempo agora, fico devendo um lindo poema no qual ele tenta convencer uma donzela, através de inteligente argumentação, que o amor carnal é divino, diferente das tintas demoníacas com as quais era pintado. Esse poema é belo, arguto, e como não poderia deixar de ser, safado.
Quer saber mais? E organizado e comentado pelo Glauco Matoso? Basta clicar aqui.
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Sátiros e Ninfas, gravura de João Werner.

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