quinta-feira, 6 de março de 2008

Como uma lua na água



O capítulo 7 de O Jogo da Amarelinha você encontra facilmente na web, é um texto muito popular. Fica portanto, para quem conhece e para quem não, o convite pra conhecer a obra do escritor argentino. Sugiro começar pelos contos para prevenir-se da vertigem do romance "Jogo da Amarelinha". Mas se você for intrépido, toca ficha que não vai se arrepender. Há um romance controverso, chamado Os Prêmios. Controverso para mim porque me pareceu escrito por um Cortázar diverso do que eu conhecia. Este romance me assombrou durante anos, até que ano passado em uma palestra sobre Kafka um professor argentino justificou meu incômodo: Os Prêmios é um Cortázar kafkiano.

Na foto, Cortázar com sua gatinha Flanelle.

Alguns livros de contos de Julio Cortázar:

Todos os Fogos o Fogo
As Armas Secretas
Histórias de Cronópios e Famas
Bestiário

Uma coisa interessante(ou não). Os argentinos parecem sofrer de uma exótica perseguição da casualidade. Alguns de seus grandes nomes das artes não nasceram exatamente na Argentina. Cortázar nasceu na Bélgica. Borges na Suiça. E o próprio Gardel, juram os uruguaios, teria nascido no Uruguai.
Abaixo, o capítulo 7.
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Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar (capitulo 7 - O Jogo da Amarelinha)

Um comentário:

Lisiane V disse...

Tenho este capítulo em inglês, espanhol e polonês, além do próprio Cortazar, Ave!, recitando/lendo, além de algumas fotos no túmulo dele, em Paris.
Se tiver interesse, mando.
Cortázar é louvor.
O capítulo 7 (sempre o 7) é uma das jóias mais preciosas na literatura, eu acho.