terça-feira, 25 de março de 2008

Poética feita de Filosofia e Bigode


"Reza uma antiga lenda grega que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio Sileno preceptor e servidor do deus Dioniso. Quando por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre todas as coisas era a melhor e o mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, Sileno calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:

"Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.""

Nietzsche em O Nascimento da Tragédia.

...............................................

Na foto genial: Com o relho na mão direita, Lou Salomé, grande paixão de Nietzsche. No meio, Paul Rée, amigo de Nietzsche e também apaixonado por Salomé. E por último mas não menos importante, nosso amigo bigodudo. Por sinal, Lou Salomé deixava um rastro de corações partidos por onde passava, tinha um séquito de ilustres admiradores. Há uma biografia dela por aí, não posso avaliar, não li, mas para quem gosta do gênero parece interessante, pois ao que tudo indica, inclusive Nietzsche, Rée e Rilke, ela era interessante. Clica aqui pra conferir.

.....................................................................

Para quem nunca leu, mas gostaria de conhecer a obra de Nietzsche, vou dizer uma coisa que meus professores certamente condenariam: Vou indicar um comentador pra começar, porque o Nietzsche merece um prólogo e, sinceramente, os leitores incautos também. Leia "Nietzsche e Para Além de Bem e Mal", do Oswaldo Giacoia Junior. Editora Jorge Zahar. É um livro de valor e linguagem acessíveis, o Giacoia o maior especialista em Nietzsche no Brasil. Tive a oportunidade de ouvi-lo em uma palestra e o cara é o tipo de acadêmico que honra a cátedra, por sinal, é professor da UNICAMP. Erudito mas não empolado, não precisa arrotar em latim pra mostrar que é o cara, porque ele é mesmo.

Depois dessa introdução, começa pelo "Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo", do próprio N., porque essa obra tem as sementes da futura filosofia nietzscheana, e é um livro sobre estética, muito bonito. Da Companhia das Letras.

Para os desavisados, um alerta: Nietzsche não era, nunca foi anti-semita. Se fosse, eu não recomendaria os livros dele, ok?

A parábola que abre este post se refere à finitude e fragilidade humanas diante da força e da imortalidade e liberdade pagãs de Sileno e Dioniso.

......................................................................................................................

Então tá valendo, era meio tralálá para alguns, gênio para outros. Para mim, um escritor único, que construiu, acredite, uma poética feita de filosofia.


Um comentário:

Lisiane V disse...

ótimo! o Nietzsche, para mim, como para qualquer bom profissional, pode ser o que quiser na sua vida pessoal, anti-semita, fanático, por qualquer coisa, desde q sua obra continue sendo boa para sempre. Ah, cansei de rotular autores de serem isso ou aquilo, não me interessa, o mundo tá cheio de brilhantes autores movidos a 'prozac'pra não mostrar sua verve depressível e para sua possível adequação ao 'admirável mundo acadêmico', belrgh!qualidade, honestidade, bitte!