segunda-feira, 3 de março de 2008

Pessoa




Tava demorando pra postar um Pessoa, né?Claro que não pode faltar. Mas optei por um poema que considero bem sui generis em relação ao resto da obra, me soa político de um modo pouco comum em Fernando Pessoa. E é tristíssimo. Além disso, um daqueles que fala de uma humanidade que sempre foi, assim é, e sempre será. O flagelo da guerra de um modo terrível e delicado, como só um inigualável poeta, que foi vários, poderia conceber.


O Menino da Sua Mãe


No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

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Esta caricatura encontrei ao acaso, assina Biratan. Belo desenho.

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