quarta-feira, 30 de abril de 2008

Homens Ocos

OS HOMENS OCOS
T. S. Eliot

"A penny for the Old Guy"(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
(...)

Tradução: Ivan Junqueira
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Amigos, ando postando na corrida, assim que me organizar volto a postar com mais carinho. Estou devendo para a Glenda e o Edison um e-mail sobre a Florbela, não esqueci, só faltou tempo, ok? Valeu pela paciência.
Pra quem não conhece, procure os poemas do Eliot inspirados em gatos. A despeito de terem inspirado, por sua vez, o "Cats" da Broadway, são muito divertidos. Vou ver nos livros em casa para trazer mais referências.
Na foto, Eliot aos 26 anos.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Wislawa Szymborska


Um poema de Wislawa Szymborska, poeta polonesa, enviado pela Lili. Amei.
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AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando eu falo a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu falo a palavra Silêncio,
o destruo.
Quando eu falo a palavra Nada,
crio algo que nenhum não-ser comporta.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

I'll be right back!



Pessoal, estou de molho por causa de uma gripe alienígena, então voltarei a postar na próxima segunda-feira. Espero que vocês sobrevivam(e eu também!).
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O cartum é assinado por Smog ou Smob, não consegui ler a assinatura, deve ser a gripe me cegando...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Nunca tão tristes vistes



Senhora, partem tão tristes

meus olhos por vós, meu bem,

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,

tão doentes da partida, tão cansados,

tão chorosos, da morte mais desejosos

cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes, os tristes,

tão fora de esperar bem

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.



João Roiz de Castelo-Branco, Cancioneiro Geral

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Esta cantiga é do século XV. Esses portugueses sempre souberam como fazer mágica com as palavras, né?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Tédio de Florbela


Tédio

Passo pálida e triste. Oiço dizer

"Que branca que ela é! Parece morta!"

E eu que vou sonhando, vaga, absorta,

Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...


Que diga o mundo e a gente o que quiser!

-O que é que isso me faz?... o que me importa?...

O frio que trago dentro gela e corta

Tudo que é sonho e graça na mulher!


O que é que isso me importa?! Essa tristeza

É menos dor intensa que frieza,

É um tédio profundo de viver!


E é tudo sempre o mesmo,eternamente...

O mesmo lago plácido,dormente dias,

E os dias,sempre os mesmos,a correr...


Florbela Espanca

terça-feira, 22 de abril de 2008

Que trem é esse?

Um foge por medo de ser pai, outro de um relacionamento neurótico, e o último de si mesmo. Três irmãos empreendem uma viagem de trem pela Índia à procura do mistério e descobrem que o que conta é deixar a bagagem desnecessária para trás. Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman perderam o pai no ano anterior e arrumaram um modo de não chegar a tempo para o enterro. Um ano depois o reencontro, o desentendimento, o absurdo e o fantástico os guiam neste road movie que se não fosse por Wes Anderson teria todas as chances de se tornar um filme de pedagogia manjada e auto-ajuda cansativa. Tri bom o filme. Trilha sonora dez, cenários primorosos, o trem todo pintado à mão por artistas indianos, sem falar no clima onírico das cores escolhidas pelo diretor. Uma película de Anderson nunca é somente um filme, é sempre um filme bom, uma aquarela supreendente, um som indispensável...Uma viagem num trem que é a vida mas também é mais, é arte, e de primeira linha. Em DVD.
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Para entrar no site oficial do filme clica aqui. E para ver o cartaz melhor, clica em cima dele.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Alcoólicas


Alcoólicas

de Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)

(...)

Hilda Hilst
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Mais Alcoolicas da Hilda Hilst? Clica aqui. Na foto, Madame Hilst poderosa em Biarritz.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Sílfide


Para Mathilde Steinbruck

Na madrugada ela escreve
com sua mão pequena e leve.
Não escreve com estrelas,
não com elas por sabê-las.


Escreve com a saudade,
com dores passadas
e risos futuros.
É noite alta na cidade,


e o crescente é bom augúrio.
Sorriso do céu quando dorme,
Parece um vaga-lume enorme,
pousado no teto escuro.


Na noite fria de outono,
com a lua ela vem conversar.
Trocam mistérios e versos,
às vezes, até de lugar!


Sobre essas idéias aladas,
por coisa alguma no universo,
a ninguém ela diz nada.
Por isso é boa confidente:


Por que sabe guardar as mágoas
e os segredos sorridentes.
Guarda tudo numa caixa
da cor da luz do poente.


Ela é assim, maga da noite.
Uma sílfide disfarçada!
À espera da aurora reinventa sonhos,
de dia finge não ser fada.


Laurene Veras
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Escultura de Regina Gallo

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Antero

O Que Diz a Morte

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;

Deixai-os vir a mim, os que padecem;

E os que cheios de mágoa e tédio encaram

As próprias obras vãs, de que escarnecem...



Em mim, os Sofrimentos que não saram,

Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.

As torrentes da Dor, que nunca param,

Como num mar, em mim desaparecem. -



Assim a Morte diz. Verbo velado,

Silencioso intérprete sagrado

Das cousas invisíveis, muda e fria,



É, na sua mudez, mais retumbante

Que o clamoroso mar; mais rutilante,

Na sua noite, do que a luz do dia.

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Retrato por Columbano Bordalo Pinheiro

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Retomando o mote inaugurado no blog com Ciranda do Esquecimento, eis um exemplar do querido e melancólico Antero. Continuo devendo o Aretino.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Nenhum Pássaro no Céu


Pessoal, tá saindo pela Fábrica de Leitura o segundo livro da Trilogia Alada do Luiz Horácio, vamos lá prestigiar! Nos vemos na quinta. Para visualizar melhor o convite, clica em cima dele.

Sombra



Tenho uma sombra irrequieta
que me segue a todo lugar.
É uma treva jovem e brincante.
Pequena noite sempiterna.
Quando longe da luz
brinca de esconde-esconde entre minhas pernas.
Se vou ao sol a sombra se entedia de estar ao pé de mim
e corre a brincar com o vento
e aquecer o negro ventre.

Quando estiver eu velha, ela, a sombra,talvez se canse de mim.
Ou talvez envelheça antes, por ser coisa tão outra.
Ou ainda,
talvez seja eu já antiga,
e a sombra, minha amiga,
esteja apenas a me tolerar
enquanto brinca de ser breu,
independente e por si.

Talvez a sombra seja eu.


Laurene veras

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Esta noite jantaremos no inferno



Conhecendo a história da Batalha das Termópilas, sabendo que Esparta foi uma cidade-estado de guerreiros quase santos e tendo noção de que o cara que registrou o fato chamava-se Heródoto, quem é que, ainda não contaminado por esse mosaico de maravilhas e sandices chamado “cultura pop”, poderia botar fé em uma versão para quadrinhos do incrível feito dos 300 de Esparta?

O processo de despojamento do preconceito deve começar pelo nome do cara: Frank Miller. Um grande autor e desenhista de histórias em quadrinhos, talentoso e inteligente, fez pesquisa sobre o tema, não é uma história requentada à moda miguelão. O filme, por sua vez, tenta reproduzir, aí no território da linguagem cinematográfica, a graphic novel. Agora pensa comigo, uma história antiga, recontada e estudada através dos séculos, desenhada por um artista da pós-modernidade e transferida para o cinema com, inclusive, toneladas de tintas digitais e muito, mas muuuuuuuuito sangue! Só pode ser uma droga, certo? Muito errado. O filme, é óbvio mas serei ululante, não deve ser visto com olhos de quem vai escrever uma tese acadêmica. Pensa no filme como a história acrescida de fantasias necessárias à indústria, mas uma festa para os olhos. Abstrai aquela bobajada dos sacerdotes verruguentos e do oráculo prisioneiro. Enfim, os diálogos não são, evidentemente, Woody Allen, e a película exige muito mais músculos e esgares ferozes dos atores do que dramaticidade, mas tudo segue tal e qual. Te faz de louco para os exageros e o resto é pura diversão.

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Próximo post: Aretino e os Sonetos Luxuriosos

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Estoy seguro que es troilo




BANDONEÓN

Me jode confesarlo
pero la vida es también un bandoneón
hay quien sostiene que lo toca dios
pero yo estoy seguro que es troilo
ya que dios apenas toca el arpa
y mal

fuere quien fuere lo cierto es
que nos estira en un solo ademán purísimo
y luego nos reduce de a poco a casi nada
y claro nos arranca confesiones
quejas que son clamores
vértebras de alegría
esperanzas que vuelven
como los hijos pródigos
y sobre todo como los estribillos

me jode confesarlo
porque lo cierto es que hoy en día
pocos
quieren ser tango
la natural tendencia
es a ser rumba o mambo o chachachá
o merengue o bolero o tal vez casino
en último caso valsecito o milonga
pasodoble jamás
pero cuando dios o pichuco o quien sea
toma entre sus manos la vida bandoneón
y le sugiere que llore o regocije
uno siente el tremendo decoro de ser tango
y se deja cantar y ni se acuerda
que allá espera
el estuche.



Mario Benedetti

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Mais um do Benedetti, que nunca é demais.

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Acrílico de Enrique Aravena, artista chileno. "Homem com Bandonéon".

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Vida é Dura


“Este cheiro que você está sentindo, é do ralo”, adianta Lourenço, antes mesmo que o interlocutor se dê conta do mau cheiro. O grande medo de Lourenço é que as pessoas pensem que o cheiro de merda vem dele.

“Só um idiota acredita em felicidade”.

“Eu não gosto de ninguém, acho que nunca vou gostar”.

Lourenço é um cara escroto, mas não imoral. Lourenço é amoral. Incapaz de se relacionar com as pessoas, Lourenço se apaixona pelas coisas, e assim se inicia uma inacreditável jornada através da qual o protagonista aprende a coisificar, inclusive, as pessoas, enquanto o cheiro do ralo o deixa cada vez mais no limite da razão.

A história tem passagens tão inusitadas que beiram o nonsense. Divertidíssimo e ácido, personagens kafkianos, atores excelentes, um baita filme. Não se iluda com o título, não é um filme sobre esgotos, é mais sobre a pequena perversão nossa de cada dia, e as catacumbas da mente.

Baseado num livro de Lourenço Mutarelli, Selton Mello imprescindível na pele do protagonista cloacal, Paula Braun como a garçonete portadora do objeto mais cobiçado por Lourenço é perfeita, e o próprio autor do livro como o segurança da loja, impagável.

Direção: Heitor Dhalia

Se quiser visitar o site oficial, muito bacana, clica aqui.

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Obrigada ao Ricardo, por me chantagear para que eu assistisse a este filme com ele.


quarta-feira, 9 de abril de 2008

da Clepsidra




Imagens que passais pela retina

Dos meus olhos, porque não vos fixais?

Que passais como a água cristalina

Por uma fonte para nunca mais!...


Ou para o lago escuro onde termina

Vosso curso, silente de juncais,

E o vago medo angustioso domina,

Porque ides sem mim, não me levais?


Sem vós o que são os meus olhos abertos?

O espelho inútil, meus olhos pagãos!

Aridez de sucessivos desertos...


Fica sequer, sombra das minhas mãos,

Flexão casual de meus dedos incertos,

Estranha sombra em movimentos vãos.


Camilo Pessanha

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terça-feira, 8 de abril de 2008

Jules e Jim, mas principalmente, Catherine



Jim é amigo de Jules, que se apaixona por Catherine, que se apaixona por Jim, e no fim todos, inclusive nós, amamos Catherine, a mulher arquertípica, a representação de todas as mulheres, aquela que além do amor detém o mistério, cujo rosto é esculpido em uma exótica e primitiva estátua de pedra. Catherine é a face do amor, da vida e da morte, personagem dionísiaco por excelência. Passar um par de horas acompanhando este trio é quase uma experiência transcendental. Há ternura, alegria, medo, ressentimento. Amor, vingança, sacerdócio. Estamos em Paris, depois atrás de trincheiras, depois nos alpes austríacos e enfim em Paris novamente. Mas as viagens não se configuram geograficamente. A grande viagem foi engendrada pelas mãos do demiurgo: Truffaut, finalmente, me conquistou.

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Impressionante como uma mulher não tão bela pode ser tão bela. Este é o veneno e encantamento de Jeanne Moreau. Rosto mais interessante do que belo, olhar doce e cruel, sorriso maroto e sarcástico, figura andrógina e sedutora. Difícil dizer se amo mais a ela ou a Catherine...

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Mais uma vez obrigada a Lili Villanova, minha cicerone do inaudito.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

As Garças

Da boca de concreto se debruça a água negra no leito onde jaz.
Canto um lamento pelas garças nas beiradas dos rios mortos.
Brancas, leves, frágeis, entre a imundície que não lhes pertence.
Corre o que outrora foi rio e algum dia um olhar despreocupado.

-Dó das garças? Por que não lamentas pelas gentes?

Não percebe?
Não vês que as garças são as gentes?

E o rio, o rio é o mundo...
Um triste rio moribundo.


Laurene Veras
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Próximos posts: Truffaut, O Cheiro do Ralo, Frank Miller.

Resumo da Ópera

Para visualizar melhor, clica na imagem, ok?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Da Transitoriedade do Corpo


Uma vez perguntamos ao professor Kiefer qual era o a maior tema da Literatura. Esperávamos, pupilos "pouca prática", que a resposta muito óbvia fosse "O Amor". Tsc,tsc. O grande tema da Literatura é a Morte. O Amor seria então, o segundo grande tema da Literatura. Da minha parte, vou dizer uma obviedade, mas a arte parece ser realmente isso, driblar a finitude, a mortalidade, e um desesperado apelo por amor. Imagino então que Shakespeare tivesse um grande tino comercial para a coisa, né, porque a genial obra, vamos combinar, é como diz a canção do Julio Reny, "Amor e Morte". O caso é que já publiquei no Pirulin poemas de diversos autores sobre o inevitável tema, inclusive um poema meu, um do Sá Carneiro, do Bocage, e andava tentando me lembrar onde diabos eu havia lido um belíssimo poema do Pedro Nava sobre a morte. Revirei a estante e encontrei no dossiê da revista Cult de número 70, aquela que, ironicamente, traz Paulo Coelho na capa. Aliás, vale a pena, e muito, ler uma crítica elegante, pertinente e tenaz do inesquecível professor João Alexandre Barbosa sobre esse controverso autor.
O poema que segue é extenso, mas "Grandes são os desertos e tudo é deserto"*.
Para quem tiver interesse em buscar na web mais um pouco sobre o Nava, esse mineiro bão de palavra, clica aqui. Poeta bissexto, a especialidade dele era prosa memorialista, mas duvido que você leia o poema abaixo e não fique com gosto de quero mais, é muito melhor que queijo com goiabada, ou como a gente chama, "Romeu e Julieta", e...olha o Shakespeare aí de novo!

O defunto


Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.


Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.


Quero a morte com mau-gosto!


Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.


E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.


Descubram bem esta cara!


Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?


Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.


— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.


— Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!


Descubram bem minhas mãos!


Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.


— Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes ...


E, eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.


— Ah! o seu velório habitual!


Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.


E quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.


Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo ...
E assim Solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.


— Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão


Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.


Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.

Pedro Nava, RJ, 1938
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*Álvaro de Campos, voltaremos a ele.
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Pintura de Gustav Klimt, As Três Idades da Mulher

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Nenhum lugar


O mundo de dentro se dissolveu:

Minha alma, lesma no sal.

Um certo tipo de mal

o derreteu.


A vida virou paródia

da vida antiga.

Sobrou um quase nada,

mais nada do que quase.


Ficou um pedaço de um vazio.

Um estilhaço branco!

Não dá nem pra um sorriso triste.

E a razão que agora existe,

é mentira, não está lá.



Tudo solto no espaço...

As coisas que não tem lugar,

as leis no vento, no ar.

Uma ilha,

só que sem mar,

sem referência.

A lágrima, urgência,

mas qual!

Vazio que se chora à seco.

A gente sem bússola,

sem estrela.

Com uns olhos de olhar de esguelha,

umas mãos de nada tocar.

Passos para qualquer lado.

Destino:

Nenhum lugar...




Laurene Veras
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Tem dias em que a gente se sente assim, né, fazer o que...
Desenho de Leonardo Da Vinci

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Józef Teodor Nałęcz Korzeniowski


Monumento ao escritor Joseph Conrad, em Gdynia, na Polônia. Creio que já disse antes, mas lá vai: O Conrad é famoso por ser um grande escritor de língua inglesa, mas nasceu na Polônia, saiu de lá aos 17 anos atendendo ao irresistível chamado do mar. Conrad entrou para a marinha e se tornou navegador. Para mais, busca o outro post que escrevi sobre ele. E clica na imagem pra visualizar melhor.
A foto é cortesia da minha querida Lili Vilanova.
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Ah, o mar, o mar...um dia eu também irei...

Guardião



Ser
o olhar de velar teu sono
E o pilar
De edificar o sonho
A vigília, se estás insone

Amortecer a queixa
Afugentar a morte a espreita
A lembrança de todos os passados
A verdade dos tempos vindouros
O prenúncio da boa sorte
O guardião dos teus tesouros

Laurene Veras
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Gravura: Leão Deitado de Rembrandt

terça-feira, 1 de abril de 2008

FestiPoa Literário

O FestiPoa Literário, organizado pelo jornal Vaia foi dez! Não pude comparecer em muitos eventos, mas basta o que vi e o que ouvi de outros que aproveitaram ainda mais do que eu. Já disse pessoalmente mas tenho que registrar, parabéns ao Fernando e ao Marco Aurélio pela iniciativa e perseverança, e parabéns a todos que apoiaram o evento.
Livros são lugares paradisíacos, né?
;-)