sexta-feira, 4 de abril de 2008

Da Transitoriedade do Corpo


Uma vez perguntamos ao professor Kiefer qual era o a maior tema da Literatura. Esperávamos, pupilos "pouca prática", que a resposta muito óbvia fosse "O Amor". Tsc,tsc. O grande tema da Literatura é a Morte. O Amor seria então, o segundo grande tema da Literatura. Da minha parte, vou dizer uma obviedade, mas a arte parece ser realmente isso, driblar a finitude, a mortalidade, e um desesperado apelo por amor. Imagino então que Shakespeare tivesse um grande tino comercial para a coisa, né, porque a genial obra, vamos combinar, é como diz a canção do Julio Reny, "Amor e Morte". O caso é que já publiquei no Pirulin poemas de diversos autores sobre o inevitável tema, inclusive um poema meu, um do Sá Carneiro, do Bocage, e andava tentando me lembrar onde diabos eu havia lido um belíssimo poema do Pedro Nava sobre a morte. Revirei a estante e encontrei no dossiê da revista Cult de número 70, aquela que, ironicamente, traz Paulo Coelho na capa. Aliás, vale a pena, e muito, ler uma crítica elegante, pertinente e tenaz do inesquecível professor João Alexandre Barbosa sobre esse controverso autor.
O poema que segue é extenso, mas "Grandes são os desertos e tudo é deserto"*.
Para quem tiver interesse em buscar na web mais um pouco sobre o Nava, esse mineiro bão de palavra, clica aqui. Poeta bissexto, a especialidade dele era prosa memorialista, mas duvido que você leia o poema abaixo e não fique com gosto de quero mais, é muito melhor que queijo com goiabada, ou como a gente chama, "Romeu e Julieta", e...olha o Shakespeare aí de novo!

O defunto


Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.


Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.


Quero a morte com mau-gosto!


Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enormes salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.


E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos.
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.


Descubram bem esta cara!


Descubram bem estas mãos.
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?


Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.


— Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.


— Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!


Descubram bem minhas mãos!


Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.


— Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes ...


E, eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.


— Ah! o seu velório habitual!


Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.


E quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.


Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo ...
E assim Solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.


— Meus, amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão


Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.


Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.

Pedro Nava, RJ, 1938
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*Álvaro de Campos, voltaremos a ele.
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Pintura de Gustav Klimt, As Três Idades da Mulher

Um comentário:

Lisiane V disse...

(...) No entanto a morte há de morrer se tu quiseres,
ó gota concebida
bendita entre as mulheres
para que houvesse vida
outra vez, e nascesse desse fundo
obscuro do mundo,
o ninho incompreensível do teu ventre.

Não, não toques ainda
nem a fímbria do manto nem o centro
do mistério que anima a tua túnica:
aguarda, ó muito séria, a ave mansa
e recebe em teu corpo de criança
a Verônica única,
a enxurrada de pétalas te abrindo. (...)"
(poema 'O Anjo Anunciador', Bruno Tolentino
variações do tema. A morte.