terça-feira, 13 de maio de 2008

Um pouco mais de sol e um pouco mais de azul



Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá Carneiro

...................................................

Para meus fiéis milhares de leitores (aha) : A partir de hoje talvez eu não consiga postar todos os dias, mas vou tentar, prometo. Se tudo correr nos conformes em breve terei internet em casa novamente e daí ninguém nos segura, certo? Por favor tenham um pouco de paciência e não abandonem o blog. Novidades à vista.

Pintura do Bosch. É manjada mas é demais, né? Eu sempre penso que esse senhor certamente comia uns cogumelos selvagens antes de pintar, que nem aquele ermitão do "Irmãos Karamazov" que se alimentava de ervas e cogumelos da floresta e depois enxergava o demônio espreitando-o atrás da porta. Sutil, sutil...

Nenhum comentário: