quarta-feira, 30 de julho de 2008

Chuva de asas




CINCO ÚLTIMOS POEMAS PARA CRIS

1

Agora escrevo pássaros.

Não os vejo chegar, não escolho,

de repente estão aí,

um bando de palavras

a pousar

uma

por

uma

nos arames da página,

entre chilreios e bicadas, chuva de asas,

e eu sem pão para dar, tão somente

deixo-os vir. Talvez

seja isto uma árvore,

ou quem sabe,

o amor.


Tradução Sidnei Schneider, 2007

Julio Cortázar, Salvo el crepúsculo,

Buenos Aires, Ed. Alfaguara, 1996.

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Nem sabia que Cortázar escrevia poesia, se bem que não admira, mas ao contrário de um bom punhado de prosadores que se aventuram por essas veredas, não é que o cara manda bem mesmo? Só podia ser meu querido Julio! E para ele que gostava de gatos, na foto, Capitu.


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Uivando pelo pampa



Ó, lançamento da revista Coyote na Palavraria, sábado, 26/07. Vamos, né?Hein?Hein?
Na Vasco da Gama, 165. Bomfim.
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Quem tava na verbalada curtiu, quem não tava perdeu. Peço desculpas pela minha sofrível performance como interpréte dos meus poemas, mas sério, meu lance é escrever, fico tímida pra dizer poesia. Já sei, tímida eu, que piada, né? Mas nesse caso é fato. De qualquer modo, todo momento é o momento pra versejar, com ou sem performance. Valeu mesmo. Foi uma noite como muito poucas. Rara.
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Muito obrigada ao Fernando e Julia pelo convite, pela oportunidade, pela compania, as risadas, a cerveja. Por tudo. Obrigada ao Sidnei pelo Cortázar poeta e pelo Sidnei poeta.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

No rastro do verbo alado




Nessa quinta tem verbalada e tem também eu,Fernando e umas garatujas poéticas no Radar da TVE. Seis da tarde.
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um rastro de tristeza
No cerne do meu sorriso
Um quê de melancolia
Nos porões da minha alegria

Se canto
Ou danço
E de meus olhos vertem flores
Trago nas mãos cerradas
Pequenas cápsulas de dores

Beijos guardados nos bolsos
E suspiros de queixume antigo
Meu caminho é branco
E negro
Percorrido por passos ambíguos

Não temo
Nem sou coragem
Navio renegado à deriva
Sem nunca chegar à margem
Pássaro de asa quebrada
Perdido na tempestade

Dolores Davi
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Este é um dos favoritos da Érica. Saiu na Zero-Hora uma vez.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

VERBALADA



Verbalada
24/07, quinta, 20h30min
Pé Palito (rua João Alfredo, 577)
ingresso: $5

VERBALADA


Verbalada é a expressão de várias ações artísticas num mesmo paldo. Poetas falando música. Músicos falando poesia. Fotógrafos dizendo poemas. Cartunistas contando histórias. Cineastas pintando o verbo. Literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas, tudo a favor da festa do verbo.

A nova festa da cidade baixa. No Pé Palito a festa da palavra, a balada verbal. O verbo multiplicado, em transe, em trânsito, transformado e misturado, em transa com outras artes. O improviso, o diálogo e a aglutinação de expressões artísticas. O happening, o grito e o encontro das linguagens.


Verbo embalado, cantado, amplificado, visualizado, gritado, desenhado, dançado, rimado, não-rimado, pensado, anotado, demanchado, engraçado, requentado, inovado, zoado.

O verbo e balada.

Verbo metrificado, transformado, esgarçado, demasiado, pausado, entoado, sussurrado, divagado, embriagado, abalado, transtornado, esfomeado, apaixonado, tarado, transbordado, babado, vaiado, assobiado, relembrado, entornado, festejado, embalado.

A balada e o verbo. A balada certa.

Balada verbalizada, vociferada, payada, repaginada, desconcertada, rodopiada, embolada, pintada, sussurrada.

A balada do verbo.

Balada trovada, descabelada, encenada, urrada, embebedada, punkada, desconfigurada, encantada, suada, desafinada, hipnotizada, verbalizada.

Participação especial: AUTORES DA NÃO EDITORA


Convidados:


sidnei schneider

telma scherer

alexandre brito

ricardo silvestrin

marcelo benvenutti

gerusa marques

cris cubas

mary farias

laurene veras

miscelânia k. (alexandre missel knorre, lúcio chachamovich, carlos d'elia, dado silveira)

leandro dóro

everton behenck

pena cabreira

marcelo gobatto

valéria payeras

caco belmonte

marcelo cougo

diego dourado

felipe azevedo

richard serraria

bibiana carvalho

diego cemin bandeira

carmen salazar

coletivo 3daqui 2de lá

etienne blanchard

kurary

júlio saraiva

patrícia soso

rodrigo rosp

reginaldo pujol filho

antonio xerxenesky

samir machado de machado

carol bensimon

diego grando

dj fred


domingo, 13 de julho de 2008

To find a way


Hurt


Trent Reznor


I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

Chorus:
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt

I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

Chorus:
What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt

I will let you down
I will make you hurt
If I could start again

A million miles away
I would keep myself
I would find a way

(pensando na versão de Johnny Cash)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

da tua Luz




Agora sabes que sou verme
Agora, sei da tua luz
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz
E eras assim ... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver ?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser ...
Mas, ora enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver ?
Olho, examino-me a tua epiderme
Olho e não vejo a tua luz !
Vamos que sou, talvez, um verme ...
Estrela nunca eu te supus !
Olho, examino-me a epiderme ...
Ceguei ! Ceguei da tua luz ?

(Pedro Kilkerry e Cid Campos)
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Munch de novo.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Au Revoir meu bem


Começa-se a morrer
No dia em que se nasce
E na vida se renasce
Vez por outra

Comecei a te perder
No dia de nosso primeiro beijo
(foi um desses renascimentos)
um beijo fragmento
de eternidade
teu beijo infinito de querer

agora, cada dia, penso e conto
quanto tempo vai ser esse encontro
quantos beijos nos resta ter
quanto de mim levarás contigo
quanto de ti ficará em meu ser.

Laurene Veras
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Klimt

sábado, 5 de julho de 2008

Sulamita




16 O meu amado é todo meu, e eu sou dele.

Ele é um pastor entre lírios.

17 Antes que expire o dia e cresçam as sombras,

volta, meu amado,

– imitando a gazela ou sua cria –,

para os montes escarpados!


1 Em meu leito, durante a noite,

busquei o amor de minha alma:

procurei, mas não o encontrei.

2 Hei de levantar-me e percorrer a cidade,

as ruas e praças,

procurando o amor de minha alma:

Procurei, mas não o encontrei.

3 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade.

Vistes o amor de minha alma?

4 Apenas passara por eles,

encontrei o amor de minha alma:

agarrei-me a ele e não o soltarei

até trazê-lo à casa de minha mãe,

à alcova daquela que me concebeu.

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Cântico dos Cânticos, Antigo Testamento.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Exílios


Nada resta

Só ausência dolorida

Só vazio e deserto

Aridez e aspereza

Sou passante circunspecto

Prisioneiro da tristeza


Trago um mudo desespero

Um grito não proferido


Um anônimo no desterro

chorando a morte do amigo


Não tenho mais sonho algum

Nem pele,nem coração

Sou apenas um espelho

Refletindo escuridão.

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Laurene Veras
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O quadro é do Munch.É, aquele Munch.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pasárgada de nós


Quando era criança ouvia este mesmo som na casa de meus avós. A casa poucas quadras da praia, ainda não havia a cadeia de arranha-céus para nos separar do mar que vinha no vento. Adormecia ouvindo o marulho, coisa mágica, uma fera com cheiro de maresia, e invariavelmente imaginava se quando o sono me vencesse todas as criaturas encantadas que viviam nas flores do jardim despertariam e seriam os donos da noite, zombando do meu ressonar indefeso de criança. Lia os gibis de vampiros do meu primo e misturava os sonhos, fadas, duendes e vampiros habitavam ali, mas não havia o que temer, o rugido terrível do mar os mantinha na linha, monstro muito maior, dono daquelas bandas.

Hoje nenhum de nós tolera passar pela esquina da infância. A casa não está lá. Da última vez, apenas entulho. É dor mesmo, dói uma dor estranha, aguda, como se embaixo dos escombros estivesse a nossa infância, a vó preparando figos em calda, as criaturas do jardim adormecidas, o rugido do mar a nos proteger da passagem do tempo. Pasárgada de nós.
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Imagina, uma casa de praia com lareira. E que frio no inverno! Pegávamos os pentes da vó e ficávamos em volta dos velhos penteando os pelegos, uns pelegos horrorosos que ficavam no chão, coisa dos anos setenta, tingidos de laranja e azul. Penteávamos o cabelo fininho e delicado da vó também, era permitido ficar ali, desde que não se desse um pio na hora da novela, só pentear pelegos, ou então brincar em outro lugar.

Casa de praia com lareira, uma vez apareceu um pinguim na praia, não sei ao certo como mas o bicho virou mascote da casa. Dizem que era muito mal humorado. Pudera, tão longe dos outros pinguins!Quando morreu, empalharam, e o pinguim que passara boa parte da vida em lugares gelados foi passar a eternidade ao lado da lareira. Imagino que agora, na sua imobilidade de coisa que não é, andava ainda mais irritado. Era grotesca aquela coisa morta no meio da sala, mas naquela casa nada era comum, tudo extraordinário. Havia também uma bóia chinesa, diziam que havia aparecido na praia, uma enorme esfera de vidro verde escuro, do tamanho de uma bola de basquete, amarrada com nós complicados e bonitos a uma corda arrebentada. Pesava o diabo.

(Eu perguntava ao pai de onde saía o vento, e ele dizia que de um buraquinho no céu.)

Por que a vó mantinha aquelas coisas...O vô era uma pessoa doente, e ela uma senhora muito alta, muito branca, dedicada, mas triste, eu acho. A vó não era dona da casa, a casa é que a possuía, fazer figos em calda, cuidar do vô, do jardim, engendrar armadilhas para os gambás, sempre aguardando pelo verão ou por feriados quando a casa se enchia de nós, ficava repleta de nós.

Alimento a fantasia de que secretamente, daquele jeito muito paciente e atencioso de vó, ela aguardava pra um dia empalhar o vô, coloca-lo eterno ao lado da lareira, e seguir o rugido da fera, voltar para o oriente, onde havia bóias que pesavam como âncoras, vento fresco de mar, e quem sabe, pinguins viajantes pelo caminho.
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Laurene Veras
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Na foto, minha avó, Herta Mury, em mil novecentos e trinta e poucos.