terça-feira, 1 de julho de 2008

Pasárgada de nós


Quando era criança ouvia este mesmo som na casa de meus avós. A casa poucas quadras da praia, ainda não havia a cadeia de arranha-céus para nos separar do mar que vinha no vento. Adormecia ouvindo o marulho, coisa mágica, uma fera com cheiro de maresia, e invariavelmente imaginava se quando o sono me vencesse todas as criaturas encantadas que viviam nas flores do jardim despertariam e seriam os donos da noite, zombando do meu ressonar indefeso de criança. Lia os gibis de vampiros do meu primo e misturava os sonhos, fadas, duendes e vampiros habitavam ali, mas não havia o que temer, o rugido terrível do mar os mantinha na linha, monstro muito maior, dono daquelas bandas.

Hoje nenhum de nós tolera passar pela esquina da infância. A casa não está lá. Da última vez, apenas entulho. É dor mesmo, dói uma dor estranha, aguda, como se embaixo dos escombros estivesse a nossa infância, a vó preparando figos em calda, as criaturas do jardim adormecidas, o rugido do mar a nos proteger da passagem do tempo. Pasárgada de nós.
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Imagina, uma casa de praia com lareira. E que frio no inverno! Pegávamos os pentes da vó e ficávamos em volta dos velhos penteando os pelegos, uns pelegos horrorosos que ficavam no chão, coisa dos anos setenta, tingidos de laranja e azul. Penteávamos o cabelo fininho e delicado da vó também, era permitido ficar ali, desde que não se desse um pio na hora da novela, só pentear pelegos, ou então brincar em outro lugar.

Casa de praia com lareira, uma vez apareceu um pinguim na praia, não sei ao certo como mas o bicho virou mascote da casa. Dizem que era muito mal humorado. Pudera, tão longe dos outros pinguins!Quando morreu, empalharam, e o pinguim que passara boa parte da vida em lugares gelados foi passar a eternidade ao lado da lareira. Imagino que agora, na sua imobilidade de coisa que não é, andava ainda mais irritado. Era grotesca aquela coisa morta no meio da sala, mas naquela casa nada era comum, tudo extraordinário. Havia também uma bóia chinesa, diziam que havia aparecido na praia, uma enorme esfera de vidro verde escuro, do tamanho de uma bola de basquete, amarrada com nós complicados e bonitos a uma corda arrebentada. Pesava o diabo.

(Eu perguntava ao pai de onde saía o vento, e ele dizia que de um buraquinho no céu.)

Por que a vó mantinha aquelas coisas...O vô era uma pessoa doente, e ela uma senhora muito alta, muito branca, dedicada, mas triste, eu acho. A vó não era dona da casa, a casa é que a possuía, fazer figos em calda, cuidar do vô, do jardim, engendrar armadilhas para os gambás, sempre aguardando pelo verão ou por feriados quando a casa se enchia de nós, ficava repleta de nós.

Alimento a fantasia de que secretamente, daquele jeito muito paciente e atencioso de vó, ela aguardava pra um dia empalhar o vô, coloca-lo eterno ao lado da lareira, e seguir o rugido da fera, voltar para o oriente, onde havia bóias que pesavam como âncoras, vento fresco de mar, e quem sabe, pinguins viajantes pelo caminho.
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Laurene Veras
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Na foto, minha avó, Herta Mury, em mil novecentos e trinta e poucos.

2 comentários:

Anônimo disse...

amo, amo. faz tempo.
Lisiane

Teresa disse...

Lindo, Lau, que texto mais lindo!!!
Comovente, hiper bem escrito, perfeito!
Saudades de ti, guria.
Ouvi Jorge Drexler esses dias e me lembrei do que me disseste, dias depois que te dei o cd, lá na Estação da Sé: "te llevo escrita en la palma de mi mano". Tás aqui ó, na minha mão, e no coração tb.
Bjocas,
Tere