quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Partiu-se




"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu nas mão da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mim pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem porque ficou ali."

Alvaro de Campos
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O quadro é Dalí, como não poderia deixar de ser.

2 comentários:

Anônimo disse...

pode ser bom ser vaso vazio.
pode ser bom ser cacos.
pode ser bom ser sacudido.

são movimentos, e como já diz a música 'a gente vai levando'.
e se vai.
Lisi

CoisasdeMaria disse...

Passei so para dar um OI!