quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Dois poemas natalinos



Há Pessoa que diga de todos os cansaços.

Mas nem mesmo ele e todas as suas malas por arrumar

resgatam meu sonho náufrago.


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Com a alma

clara em neve que desanda
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Laurene Veras

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A imagem, perfeita, é Ryder também.

Nau



Teu corpo

meu barco


Saliva marinha

Tua língua na minha


Teus braços são lemes

Os silêncios calmarias


As mágoas tempestades

Terríveis e solenes


Teus dentes

Vestígios

De coral


Tua ausência é ferida

Que arde com sal


Laurene Veras
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O Holandês Voador de Albert Pinkham Ryder, simbolista americano.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O pai nosso




Inscrição


Eu vi a luz num país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme...


Camilo Pessanha
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A pintura, super fofa e natalina...rs...é o Chronos de Goya. Na teogonia de Hesíodo, Chronos o deus que devora os próprios filhos. "Theos"= Deus "Gonia" vem de Genea, que significa origem. Sacou? Ora (como diriam meus ex-colegas da escola espartana), o projeto poético de Pessanha publicado postumamente se intitula "Clepsidra", que nada mais significa do que "relógio d'água". Não por acaso, a poética de Pessanha gira em torno da trágica e irrefreável fluidez do tempo. Portando, nada mais "tempo" nem trágico do que esse Goya, nest pas? Tudo a ver com os dias que ventam hoje.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Já que é natal...




No deserto

ninguém por perto

o que eu queria

nem água

nem companhia


bastava

uma estrela guia.
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Laurene Veras
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A ilustração é da Lupe, genial, não perde tempo e vai conferir:

Dezembro navalha do ano*


* Lisien V
Esta é uma das minhas tiras favoritas, e de um dos meus quadrinistas favoritos.
Pra ver mais do Laerte, clica aqui http://www.laerte.com.br/
Para ver mais de Lisien V clica aqui http://lisianev.wordpress.com/

Aquele espírito de sábado à tarde, a não ser pelo aspecto ridículo da flor do Flamboyant



Um dia, talvez, eu desista
(como se isso já não fora...).
Simplesmente vou parar.
Não tentar, nem debater,
nada negar e nada querer.


Dia desses olho no espelho
e me vejo,
não o que agora sou,
mas o que é não ser.
Será um dia mágico e pesado,
talvez esteja quente e úmido.
O dia que em que estarei
sumariamente cansado.


O reflexo será o próprio espelho
refletindo o azulejo do banheiro,
e talvez surja uma sobra incerta,
uma ex-pessoa,
desaparecida e fantasmagórica
espreitando o rosto perdido.


Sem chorar nem rir.
Sem buscar nenhum sentido.
Sem nada estar fazendo.
Sem emitir nenhum ruído.
Melancolicamente não sendo...


Laurene Veras
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O quadro é Munch.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Dois poemas que são o mesmo para dois leões idem parte I







Silencioso

contempla

a grama


em seu repouso

altivo

parece manso


poderoso

e terrível

dono da savana


de seus passos

não se escuta

o avanço


ágil

arrebata

a presa incauta


saciado

é belo

em seu descanso.