terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Do outro lado


Eu quando estou inteira

Sou a dona dessa aldeia

Decreto, revogo, condeno,

Enforco, promovo e aposto

 

Então se estou na beira

Olho lá pro fundinho e grito:

Não pulo, não me entrego

Eu me nego, eu me seguro

E não há nada nem ninguém

que me impeça de rir e me aquecer

no intenso carvão de ser.

 

Eu estou aquém do muro.

 

Mas se estou pela metade

Aí é que se dá o dito

Miro a ponta do infinito

Me lanço.  O vôo é longo

A queda é lenta e

fria.


Pouso estilhaço

e não tenho voz.


Aqui do lado escuro.

 


sábado, 17 de janeiro de 2009

Dádiva

 
Não sei se é amor que tens, ou amor que finges, 
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta. 
Já que o não sou por tempo, 
Seja eu jovem por erro. 
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso. 
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva 
É verdadeira. Aceito, 
Cerro olhos: é bastante. 
Que  mais quero? 

Ricardo Reis

domingo, 11 de janeiro de 2009

Louca anatomia



Gosto de quem gosta
Das coisas sem querer prendê-las
Gosto de quem gosta, como eu
De ficar namorando, ficar se beijando, olhando
Para as estrelas

Gosto de quem gosta
Das coisas sem querer prendê-las
Gosto de quem gosta, como eu
De ficar namorando, ficar se beijando, olhando
Para as estrelas

Assim vou caminhando
Por esta vida
Assim eu vou andando 
Por esta imensa avenida
Vivendo não sei bem por quê
Sempre numa grande expectativa ahh
E avenida em russo quer dizer perspectiva
E avenida em russo quer dizer perspectiva

Sendo assim eu lhe pergunto
Se você não quer ser
A minha avenida, a minha ávida vida
A minha expectativa, a minha perspectiva
A minha expectativa, a minha perspectiva

Por exemplo
Perspectiva é avenida
Avenida Nevsky: perspectiva Nevsky
Avenida Getúlio Vargas: perspectiva Getúlio Vargas
Avenida Brasil: perspectiva Brasil
Avenida Paulista: perspectiva Paulista

É.... glasnost... transparência
E abertura é perestroika
Karandash é lápis e babushka é vovó
E camarada, ah camarada é tovarish
E paz, paz é mir mir mir

Gosto de quem gosta...

Para a rua, tambores e poetas
Ainda há palavras lindas
U R S S – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ó tu, União Soviética, Cristo entre as nações
Para o júbilo, o planeta ainda está imaturo
É preciso arrancar alegria lá do futuro

Morrer nesta vida não é difícil
O difícil é a vida e seu ofício
E os demais todo mundo sabe
O coração tem moradia certa 
Bem aqui no meio do peito

Mas é que comigo 
A anatomia ficou louca
E sou todo, todo, todo, mas todo... 
Coração


Jorge Mautner
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Outra música de que gosto muito.
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A pintura é Guignard e não vou dizer mais nada, vai na Fundação Iberê Camargo ver pra crer, até 8 de março, porque é fantástico. O nome da obra é Paisagem Imaginária.
Fundação Iberê Camargo: http://www.iberecamargo.org.br/

Posologia




Tudo é uma questão de manter 
A mente quieta 
A espinha ereta  
E o coração tranquilo

Walter Franco
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É uma letra de música, mas vem bem a calhar. E eu adoro essa música.
O desenho é o Gato de Cheshire de Alice no País das Maravilhas, o da Disney.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Balada do Desesperado


Henry Murger

A Balada do Desesperado

— Quem bate à porta a tais horas?
— Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

— Abre. — Teu nome? — Há geada,
Abre. Teu nome? — És tardio!
Qual é teu nome? — Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me — Inda não!

Diz teu nome... — Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
— Passa fantasma irrisório...
— Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
— Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

— Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! — Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

— Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
— Posso dar-te a tua amante...
— Podes dar-me o seu amor?

— Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! — Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!

— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

— Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!


Tradução de Castro Alves.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Res



O morrer das horas

sem sentido,

a saudade do inexistente.


Houve um tempo

em que todos eram gentes

e sorriam, ignorantes, meninos.

A indelicadeza de mostrar os dentes

sendo semidivinos,

superiores,

ancestrais.


Agora restos,

como cascas de fruta,

na ultrajante situação de não ser mais.


Laurene Veras

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Este poema é bastante antigo pra mim, e está inacabado. Mas sempre gostei muito dele e resolvi postar assim. É um poema mutilado.
Ilustração, As Parcas, de Goya.