sábado, 28 de março de 2009

Indeterminismo



Uma bruxa
uma vez
me disse

-Um dia terás cacife!
Mas cuida teu lado avesso,
também te vejo no excesso.

E apesar da profecia
eu cá, por mim, vaticino:


Vou bordando meu destino
nuns dias Maria Bonita
nuns outros eu sou Virgulino.

Laurene Veras

quarta-feira, 25 de março de 2009

Cantiga de Amiga



Para Lisiane Vilanova


Um nó desatado.



Do meu abraço

furtou-se um braço.



Do ventre teu

na alma um breu



e outro braço

de mim se perdeu.



De muito longe te vejo

espelho, espelho meu.



Laurene Veras

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Um amigo é um retrato de Dorian Gray às avessas: Duplica o que de belo há em nós.

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terça-feira, 24 de março de 2009

A História da Casa das Lias

Como em toda boa família portuguesa os Amaral são um matriarcado, e é aí que o livro fica um pouco na semente do que poderia ser. Todas as personagens relevantes são mulheres, os homens, quando muito, são belos e charmosos, mas sem estofo, sem alma, como se foram personagens de papelão. A protagonista, Joana, é uma jovem médica que vive em Lisboa, mas será sua avó, Julia, quem há de fazer valer o romance. Julia é a heroína arquetípica, inquieta, arrebatadora e amoral. Alguém como a Catherine do “Jules e Jim” de Truffaut. Isto causa, a meu ver, um desequilíbrio qualitativo da narrativa, pois para Joana tudo se resolve com facilidade, o foco quer estar nela mas não chega lá. O que poderia haver de instigante em Joana, a questão da culpa ancestral, fica na superfície, não chega a ser revolvido no seu drama, o particular de Joana. Para completar, este mesmo drama, que não se realiza, é facilmente esquecido por ela com uma fabulosa e inesperada herança e o príncipe encantado pedindo sua mão. Há a criada, guardiã dos segredos da casa: Boa demais, lhe falta um quê de Juliana do “Primo Basílio”. Ana, cuja forte personalidade surge, entorna o caldo, e apaga-se. E há ainda Marta, a irmã que tem um dom. Marta, que deveria ser o duplo de Joana, já que aquela sofre com uma culpa de nascença e uma inquietude inexplicáveis e esta é a paz encarnada, praticamente não existe. Assim como as coisas que vê, Marta é quase que uma aparição, etérea e esmaecida. Marta é, na verdade, o canal que a autora usa para inserir um mal disfarçado espiritualismo de almanaque querendo se aproximar do realismo fantástico. Para quem gosta, eu diria que Rosa Faria se aproxima bastante de Isabel Allende, às vezes até de Marion Zimmer Bradley(na questão da castração masculina, vide João Baptista que é a perfeita descrição do Lancelote apático de Bradley, até mesmo fisicamente). Não gosto de Allende e Brumas de Avalon é divertido mas. Apesar da falta de um pulso mais firme na evolução do drama e das personagens, Rosa Faria sabe a pedra de jade. É como bolo de aniversário, tira a clara em neve enjoativa de cima e por baixo há um delicado e macio pão-de-ló:
"e o padrinho Augusto presumido cansado, depois adormecido, depois desacordado, depois desmaiado, por fim morto, está morto João, meu Deus, chama o doutor Machado e o tabuleiro pousado bruscamente na banca entre cinzéis e pedaços de mármore, o leite a empapar as bolinhas amarelas do naperon e um biscoito caído com o solavanco no pó de pedra, a desenhar aos pés do morto um imprestável infinito."

Grifo meu nos biscoitos em forma de oito. Em passagens como esta, não raras, aparece o delicado mas impressionante jade de Rosa Faria.

O Sétimo Véu
Rosa Lobato de Faria
Edições Asa
Colecção: Finisterra - Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa
Nº págs.: 224
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Este livro ainda não foi publicado no Brasil. Obrigada à professora Elisabete Peiruque pela escolha e o empréstimo do livro.
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Salomé, de Tavik Frantisek Simon

quinta-feira, 19 de março de 2009

Boa Noite Senhor Lagarto



Havia alguém comigo e de repente surgia um lagarto entre nós. Era um lagarto lindo, de um verde muito vivo, como uma iguana, e dava para ver a pele escamosa se mexendo com a respiração dele. No susto, antes que eu pudesse intervir, a pessoa que estava comigo surgiu com um martelo e bateu com força no pescoço do lagarto e o matou. Quando o martelo bateu no réptil seu pescoço era mais duro do que parecia, percebi pelo impacto e pelo som, foi como bater em um peixe, pensei. Fiquei chateada e protestei contra o lagarticídio.


Laurene Veras
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Fragmento de um sonho publicado no dromma.
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Uma das "Teiniaguás" de Jane Machado, litografia de 2007.

O Fim e o Princípio




O documentarista Eduardo Coutinho procura pessoas comuns no sertão da Paraíba e com a ajuda de Rosa entra em suas casas e lhes pede que contem estórias, em princípio sem conduzir o tema das narrativas e indagações dos locais. A surpresa fica por conta do tema mais abordado pelos nativos, que através da oralidade terminam por inquietar-nos com o tema literário por excelência. Aliás, os dois maiores.

Neste filme o cineasta se permite aparecer como personagem interlocutor, e em certos momentos se vê embaralhado ao se tornar entrevistado em vez de entrevistar. Obviamente se evola do inusitado e retoma o leme.

Detalhe curioso: A importância da escrita na narrativa quando o sentidos não dão conta do recado. Digo curioso por que, aqui, inserida num contexto propositadamente de oralidade.

Atenção para o olhar atento: Não é c0itadinho nem um marginal feliz o homem simples do sertão, cuidado com o olhar, olha e vê. Ingênuos somos nós quando tentamos formatar todos os fenômenos que fogem da nossa realidade imediata.

Transcrevo de memória um diálogo impagável do cineasta com um sertanejo, começando por este:

- Só confio na minha mãe.

- Mas e a sua mulher?

O homem pensa um pouco, gesticula muito e conclui:

- Mulher é mulher, mas bom é mãe!


Informações sobre o filme:

Gênero: Documentário

Diretor: Eduardo Coutino

Duração: 110 minutos

Ano de Lançamento: 2005


Clica aqui pra baixar: O Fim e o Princípio
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Meu muito obrigada à professora Ana Lucia Tettamanzy por disponibilizar o filme e a oportunidade.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Cogito ergo...




Engulhos

Espasmos de euforia


Uma idéia

tornando-se viva

é vomitiva.


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O carnaval

da sinapse.


A razão

se fantasia

de arte.


Laurene Veras

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O Carnaval do Arlequim, Miró.

domingo, 15 de março de 2009

Teresa



Daqui do alto

vejo imóveis

as copas das árvores.


Não há vento em mim.

Às vezes se agita um galho

voa desvairado um pensamento


Os meus pássaros se vão

A árvore segue inerte

E eu enterro minhas raízes.


Teresa Azambuya
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Mais Teresa? Aqui.
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Raíces de Frida Kahlo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Licantropia



Rasga

a pele

que te engasga


Sibila

e troca de casca


Arrebenta pontos

abre cicatrizes


Puxa os fios soltos

arde em magentas

rejeita os matizes


Sê fera

medra no inadiável

e mira

o espelho inquebrantável

de ti.
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Laurene Veras
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"Sátiro à noite", pintura digital de João Werner.


Luando e outrando



No meio da noite neutra

a noite silente do asceta

uma lua, luz imensa

vem despertar o poeta.


E o fundo das coisas todas

traz à tona as sempre notas

da música que não cessa.


E mesmo se luz não houvesse

na ausência do grande satélite

se não existissem estrelas

e nem deuses, nem profetas,


inda assim brilhava o verso

idéia nascida no outro

alegria e pesar que se empresta.


Laurene Veras

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Desconheço a autoria da foto, mas foi capturada aqui.

domingo, 8 de março de 2009

Alan Moore x Schultz


Heroísmo, quadrinhos, pessimismo = Diversão



Fantástico. Roteiro bem costurado, de fôlego( quase três horas de filme), visualmente de cair os butiá do bolso! Sem falar na estória, que é bem legal e tá super bem contada, um roteiro complexo mas robusto, não sobra nada, não falta nada. Este é daqueles pra ver no cinema, telão grandão, espetáculo. E ainda por cima Schoppenhaueriano...Ah, trilha sonora perfeita! Trailler e onde e quando assistir em Porto Alegre: Watchmen

sábado, 7 de março de 2009

Tantas cosas...



Guitarra y Vos


Que viva la ciencia,

Que viva la poesia!

Que viva siento mi lengua

Cuando tu lengua está sobre la lengua mía!

El agua esta en el barro,

El barro en el ladrillo,

El ladrillo está en la pared

Y en la pared tu fotografia.


Es cierto que no hay arte sin emoción,

Y que no hay precisión sin artesania.

Como tampoco hay guitarras sin tecnología.

Tecnología del nylon para las primas,

Tecnología del metal para el clavijero.

La prensa, la gubia y el barniz:

Las herramientas de un carpintero.


El cantautor y su computadora,

El pastor y su afeitadora,

El despertador que ya está anunciando la aurora,

Y en el telescopio se demora la última estrella.

La maquina la hace el hombre...

Y es lo que el hombre hace con ella.


El arado, la rueda, el molino,

La mesa en que apoyo el vaso de vino,

Las curvas de la montaña rusa,

La semicorchea y hasta la semifusa,

El té, los ordenadores y los espejos,

Los lentes para ver de cerca y de lejos,

La cucha del perro, la mantequilla,

La yerba, el mate y la bombilla.


Estás conmigo,

Estamos cantando a la sombra de nuestra parra.

Una canción que dice que uno sólo conserva lo que no amarra.

Y sin tenerte, te tengo a vos y tengo a mi guitarra.


Hay tantas cosas

Yo sólo preciso dos:

Mi guitarra y vos

Mi guitarra y vos.


Hay cines,

Hay trenes,

Hay cacerolas,

Hay fórmulas hasta para describir la espiral de una caracola,

Hay más: hay tráfico,

Créditos,

Cláusulas,

Salas vip,

Hay cápsulas hipnóticas y tomografias computarizadas,

Hay condiciones para la constitución de una sociedad limitada,

Hay biberones y hay obúses,

Hay tabúes,

Hay besos,

Hay hambre y hay sobrepeso,

Hay curas de sueño y tisanas,

Hay drogas de diseño y perros adictos a las drogas en las aduanas.


Hay manos capaces de fabricar herramientas

Con las que se hacen máquinas para hacer ordenadores

Que a su vez diseñan máquinas que hacen herramientas

Para que las use la mano.

Hay escritas infinitas palabras:

Zen, gol, bang, rap, Dios, fin...


Hay tantas cosas

Yo sólo preciso dos:

Mi guitarra y vos

Mi guitarra y vos.


Jorge Drexler
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Ele é demais. Entra aqui e baba: Jorge Drexler

sexta-feira, 6 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Nonsense



Agora tua boca
Não mais me pertence
Anda por aí,
pra quem lhe quiser

Esse beijo
ficou nonsense
Não faz sentido
em outra mulher.


Laurene Veras
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segunda-feira, 2 de março de 2009

A alma rasa




Inventário do Desamor



Deixo contigo meu sangue

meus livros e minhas horas.


E a dor cansada na insônia

contra o lençol das demoras.


Deixo a paz que eu encontrei

mas me fugiu entre os dedos.


E a chave surda e sem uso

da gaveta dos meus medos.


Deixo perdido um poema

e não por esquecimento:


mas pra que um dia eu te encontre

na leve pauta dos ventos.


Deixo contigo meu ventre

meus olhos, minhas entranhas.


E com mãos nuas, reflito:

- Perde mais quem hoje ganha?


Deixo contigo meus beijos

meu suor, meu desabrigo.


Deixo roupas, documentos.

De meu, nada irá comigo.


Deixo a sombra, de teimosa.

Deixo as fotos, deixo a casa.


Do poço mais infinito

só levo a alma, presa e rasa.


Jaime Vaz Brasil
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Não tenho o nome do ilustrador, se alguém souber agradeço, pra deixar os devidos créditos. Capturado em artorpedo.zip.net/
O Jaime Vaz Brasil é tudo de bom e se quiser ler/saber mais clica aqui.
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Este post é pra ti Jubs.