terça-feira, 24 de março de 2009

A História da Casa das Lias

Como em toda boa família portuguesa os Amaral são um matriarcado, e é aí que o livro fica um pouco na semente do que poderia ser. Todas as personagens relevantes são mulheres, os homens, quando muito, são belos e charmosos, mas sem estofo, sem alma, como se foram personagens de papelão. A protagonista, Joana, é uma jovem médica que vive em Lisboa, mas será sua avó, Julia, quem há de fazer valer o romance. Julia é a heroína arquetípica, inquieta, arrebatadora e amoral. Alguém como a Catherine do “Jules e Jim” de Truffaut. Isto causa, a meu ver, um desequilíbrio qualitativo da narrativa, pois para Joana tudo se resolve com facilidade, o foco quer estar nela mas não chega lá. O que poderia haver de instigante em Joana, a questão da culpa ancestral, fica na superfície, não chega a ser revolvido no seu drama, o particular de Joana. Para completar, este mesmo drama, que não se realiza, é facilmente esquecido por ela com uma fabulosa e inesperada herança e o príncipe encantado pedindo sua mão. Há a criada, guardiã dos segredos da casa: Boa demais, lhe falta um quê de Juliana do “Primo Basílio”. Ana, cuja forte personalidade surge, entorna o caldo, e apaga-se. E há ainda Marta, a irmã que tem um dom. Marta, que deveria ser o duplo de Joana, já que aquela sofre com uma culpa de nascença e uma inquietude inexplicáveis e esta é a paz encarnada, praticamente não existe. Assim como as coisas que vê, Marta é quase que uma aparição, etérea e esmaecida. Marta é, na verdade, o canal que a autora usa para inserir um mal disfarçado espiritualismo de almanaque querendo se aproximar do realismo fantástico. Para quem gosta, eu diria que Rosa Faria se aproxima bastante de Isabel Allende, às vezes até de Marion Zimmer Bradley(na questão da castração masculina, vide João Baptista que é a perfeita descrição do Lancelote apático de Bradley, até mesmo fisicamente). Não gosto de Allende e Brumas de Avalon é divertido mas. Apesar da falta de um pulso mais firme na evolução do drama e das personagens, Rosa Faria sabe a pedra de jade. É como bolo de aniversário, tira a clara em neve enjoativa de cima e por baixo há um delicado e macio pão-de-ló:
"e o padrinho Augusto presumido cansado, depois adormecido, depois desacordado, depois desmaiado, por fim morto, está morto João, meu Deus, chama o doutor Machado e o tabuleiro pousado bruscamente na banca entre cinzéis e pedaços de mármore, o leite a empapar as bolinhas amarelas do naperon e um biscoito caído com o solavanco no pó de pedra, a desenhar aos pés do morto um imprestável infinito."

Grifo meu nos biscoitos em forma de oito. Em passagens como esta, não raras, aparece o delicado mas impressionante jade de Rosa Faria.

O Sétimo Véu
Rosa Lobato de Faria
Edições Asa
Colecção: Finisterra - Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa
Nº págs.: 224
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Este livro ainda não foi publicado no Brasil. Obrigada à professora Elisabete Peiruque pela escolha e o empréstimo do livro.
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Salomé, de Tavik Frantisek Simon

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