terça-feira, 7 de abril de 2009

Será que Certeau certamente estava certo?



Em "A invenção do cotidiano", um pouco do pensamento de Michel de Certeau. Pensador francês, jesuíta com formação em Filosofia, Letras, História e Pedagogia, considerado um dos grandes teóricos da condição pós-moderna, seja lá o que fique acordado que isso significa no final das contas, dada a inextricável polêmica acerca do termo. Verdade seja dita, Certeau escreve bem ao modo do que propõe. De discurso oblíquo, para não dizer abstruso, o estudioso é um daqueles pensadores da contemporaneidade que se vale até a exaustão de um vocabulário hermético e confuso. Dito isto, do que trata o texto enfim? Eu me pergunto. A partir de algumas rápidas pesquisas, em cujos resultados diagnostiquei grande admiração e um sem fim de citações sobre o autor, pode-se resumir que Certeau busca uma leitura dos fenômenos cotidianos que propõe uma visão não totalitária ou convencional dos fatos, mas antes uma análise que contemple o objeto inserido no não discursivo, as narrativas que situariam-se na margem ou no entremeio das narrativas ordinárias, ou como ele mesmo gosta de chamar, do olhar panóptico. O grande e místico problema, está na base da discussão. O que Certeau discute/discursa parte de não-axiomas, ou de premissas aparentemente aleatórias que ele toma por válidas porque sim. Por exemplo, e esta foi/está sendo uma das minhas maiores dificuldades na tentativa de entender as idéias deste autor, Certeau não fundamenta, não esclarece os conceitos basilares de sua narrativa, ou melhor, quando o faz, é prestidigitador o suficiente para que não se possa dizer que o argumento não tem procedência, e na melhor das hipóteses, se parece satisfatório, não se sabe afirmar ao certo como. Afinal, a que fatos ele se refere?Quais são exatamente os objetos mencionados?O autor parte do universal para o particular com tal liberalidade discursiva que lembra uma filmagem em plano sequencia sem personagens definidos, um emaranhado narrativo que até pode cair bem em termos artísticos, mas para um texto teórico se situa entre o erudito olímpico e um sopão de idéias à moda da casa. Hábil com as imagens, pode-se dizer que o texto de Certeau funcionaria se fosse pincelado em cores e texturas, mas em palavras nos deixa pendurados no pincel. Vide trecho abaixo:

"A caminhada, que sucessivamente persegue e se faz perseguir, cria uma organicidade móvel do ambiente, uma sucessão de topoi fáticos. E se a função fática, esforço para assegurar a comunicação, já caracteriza a linguagem dos pássaros falantes como constitui "a primeira função verbal a ser adquirida pelas crianças", não é de causar espécie que anterior ou paralela à elocução informativa, ela também saltite, caminhe nas quatro patas, dance e passeie, pesada ou leve, como uma seqüencia de "alô!" em um labirinto de ecos."


Sabemos que qualquer discurso fora de seu contexto pode parecer esdrúxulo e ser de fato manipulado para fins outros, mas com boa vontade eu me pergunto: Hã?

Ponto para o autor, que como já foi dito é mestre na imagética do pensamento ,quando escolhe a seguinte epígrafe para abrir o capítulo chamado "A FALA DOS PASSOS PERDIDOS":

"Reconhece-se a deusa por seus passos."
Virgílio
Eneida, I, 405

Na epígrafe acima Certeau diz mais sobre a própria tese do que a tese por si, o que não nos admira haja vista que o autor não é, nem de longe, um Virgílio, no máximo uma espécie de Virilio¹, não que isto seja necessariamente elogioso. Aqui o jesuíta nos mostra que está a falar dos passos e da cidade, e a cidade como uma visão mítica, deusa para o olhar panóptico, olhar este que é o que o pensador se propõe a desconstruir.

Atenção para a seguinte analogia, que abre o texto de subtítulo "Enunciações pedestres":
"Uma comparação com o ato de falar permite ir mais longe e não se limitar somente à crítica das representações gráficas, visando, nos limites da legibilidade, um inacessível além. O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua ou para os enunciados proferidos."


Eu diria que esta é uma analogia, no mínimo, ousada. Mas ousadia é a marca do autor e desconstrução do pensamento linear e cômodo é o que ele propõe. Poderia ter realizado a proposta com um pouco mais de clareza, que para discutir a tão falada pós-modernidade não se faz necessário ser tão pós-moderno. Afinal, não é mistério pra ninguém que falar difícil não significa necessariamente falar de coisas difíceis. E vice-versa.
Hã?


¹Paulo Virilio, filósofo francês da "pós modernidade".
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Este meu textículo não pretende ser uma resenha acadêmica. Antes fosse, porque é o que preciso apresentar para a turma amanhã.
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Aceito réplicas e possíveis esclarecimentos, não aceito provocações.
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