segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Da janela

Calor senegalês. Mulher grita para o marido do outro lado da rua:
-Traz pão!
Uma voz de criança completa:
-E picolé!
-Tem picolé em casa.
-Eu comi tudo!
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Na foto, Shirley Temple.

sábado, 29 de agosto de 2009

Martin Fierro




Aproveitando que estamos entrando no mês do gaúcho por conta das comemorações da revolução farroupilha, deixo aqui uma dica de filme. É uma animação de 2008, coprodução Argentina/Espanha, belíssima, inspirada no poema de José Hernandéz de 1872. Uma realização primorosa e emocionante, de los dibujos a la musica. Este regalo eu devo a minha querida amiga e colega Maria, pesquisadora estudiosa da obra de Erico Veríssimo e apreciadora da cultura del gaucho pampeano. Mais uma vez obrigada Maria, pelo filme e pelo carinho, é um privilégio estudar e aprender com vc.
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Dá pra fazer o download da película aqui ó, clica aqui.

Buenas e me espalho, nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!*



Aí peonada, quando um burro fala o outro baixa as orelha, então o negócio é o seguinte: Maratona literária em setembro, direto do acampamento farroupilha no parque Harmonia. Oigalê! 18 de setembro, no piquete da leitura.
Mais detalhes no blog da maratona literária, clica aqui.
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Pintura do Nelson Jungbluth
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* Assim é que o Capitão Rodrigo se apresenta qdo chega em Santa Fé, no Tempo e o Vento do Erico Veríssimo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

De cama

Esta é uma foto recente de Laurene Veras tirada logo após a mesma ter caído enferma. Em entrevista à revista "Who cares?", Laurene declarou que o pior de tudo é a sensação de ossos liquefeitos, certamente uma marca da condição humana pós-moderna, que agora não mais sofre de vazio existencial mas antes pena amargamente com o vazio na carteira e na conta bancária. Desejamos à ilustríssima anônima proprietária deste blog uma recuperação rápida para que ela possa voltar à se queixar da vida sem motivos relevantes e deixar-se ficar na cama por qualquer motivo menos frustrante do que a incapacidade de manter-se em pé por mais de um par de minutos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ou não...


Sábado a noite zappeando e me deparei com uma entrevista que o Caetano Veloso deu para o programa Vox Populi da TV Cultura em 1978. Foi melhor que ir ao cinema! O Caetano com aquele jeitinho bichogrilístico que lhe cai tão bem, enrolando os caracóis dos seus cabelos nas pontas dos dedos e respondendo - ou não - perguntas de pessoas de diversas áreas, dentre elas Jorge Mautner e Décio Pignatari. Algumas respostas realmente eram mt divertidas pq ele divagava tanto que não dava pra entender onde se ia chegar, se é que havia um ponto de chegada...Outras vezes ele se contradizia, docemente. Se enfureceu com um crítico do jornalismo cultural e daí não teve "ou não", chamou o cara de burro e ignorante, e ao que parece, com propriedade. Numa das perguntas, em vez de resposta tradicional, cantarolou tda "Sampa", lindamente, e em outro momento explicou alguns versos da música, que na verdade são citações/homenagens. Mas o melhor de td, a cereja do sunday, ao ouvir a seguinte pergunta: "Quem é Caetano Veloso?".
Placida e desaforadamente, Caetano transcende e eu aplaudo:
"Sou eu."
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A polêmica no programa, sobre a gíria "curtir", impagável. Não sei se o vídeo está disponível na net, mas vale a pena.

O Continente sob a luz da psicanálise

Amanhã na Saraiva do shopping Moinhos tem uma palestra mt legal sobre o Tempo e o Vento. Como estou estudando a obra esse semestre não quero perder, e deixo aqui o convite pra quem, como eu, concorda com o Juvenal Terra quando dizia sobre o Capitão Rodrigo que "o diabo do homem tem feitiço!". Vou e aproveito pra confrontar minhas teses do Hospício Itinerante, segundo as quais o Pedro Missioneiro era esquizofrênico; o Capitão Rodrigo Cambará, aquele homem encantador e endiabrado, bipolar; o Bolívar Cambará, filho do capitão, um ansioso crônico; a mulher do Bolívar, Luzia - apelidada pelo dr Winter de Teiniaguá - era histérica; o Licurgo era só mais grosso que dedão destroncado mesmo, rs, mas o filho dele, o Dr Rodrigo Terra Cambará, um egolátra patológico, mas esse ainda to submetendo a estudo de caso, rs.
Em defesa da Teiniaguá, deixo dito que tive pena dela. Uma mulher que estudou na côrte presa naquele fim de mundo de Santa Fé só podia ficar lelé, até eu ficaria, se eu de fato já não fosse...

Laura e Maria

Ilustração da Laura George, que deixo aqui como uma mensagem de incentivo à tds que como eu, estão apavorados com as tarefas do novo semestre letivo, rs. Justiça seja feita, conheci o trabalho da Laura no blog da Maria Julia, que é fantástico, então eu dei uma surrupiada na ilustração que a Julia postou, e aproveito pra dar a deixa dessas duas talentosas internéticas: Pra conhecer mais de Laura George, clica aqui. Pra mais Maria Julia, aqui. E lembrem-se: Don't panic!
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Brigada Julita!
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cute Coffee Monsters

Tava aqui me engalfinhando numa briga de foice com um teórico chamado Assmann (sim, este é o nome dele!) e ponderando, com medo da insônia, tomo um café, não tomo um café, tomo um café...daí lembrei os Coffee Monsters, personagens fofos da Samanta Flôor, uma arquiteta/ilustradora cujo trabalho conheci esses dias e adorei. A Samanta tá na foto que publiquei esses tempos, das meninas que fazem quadrinhos em Porto Alegre. Pra conhecer mais, clica aqui. E tb aqui.

Coffee break


Começou o segundo semestre e na real eu nem tive férias pq estava terminando os trabalhos que tinha de entregar e lendo o necessário para as disciplinas seguintes. Primeiro dia de aula e já tenho mais ou menos umas 150 páginas para resenhar para a semana que vem, a maior parte não está em português, o que não é problema mas demanda um pouco mais de tempo pq a leitura não é tão fluída qto no nosso judiado idioma. Ou seja, a partir de agora, cafeína é meu primeiro nome, e endorfina o sobrenome. Viva o café, eu adoro café, é gostoso, é cheiroso, não engorda, dá um pique, acelera o metabolismo, enfim, um cafezinho na medida certa é o ouro. Vai daí que eu andava bisbilhotando o trabalho da minha ilustradora favorita, a Lupe, e encontrei a ilustração perfeita pra esse post. Tb me dei conta de que ainda não tinha linkado o blog dela, então se quiser mais Lupe (fala sério, quem não quer mais desenhos da Lupe?), inclusive wallpapers exclusivos td mês, entra aqui.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Chiqsland

Pra quem tb curte arte moderna, hj acontece a abertura da exposição dos quadrinhos dessa menina maluquinha e talentosa, a Chiquinha. Lá no Studio Clio, 19:30 hs. Vamos?
Pra conhecer mais do trabalho da Chiquinha, clica aqui.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um certo Capitão Rodrigo



"Pouco mais de um mês depois da noite do duelo, Rodrigo deixou a cama pela primeira vez, com os membros lassos, a cabeça ôca e tonta. Caminhou até a porta da casa de Juvenal e quando olhou para a praça e avistou a figueira grande, sentiu que amava aquela árvore, aquele chão, aquele povoado. Entrecerrou os olhos, focou-os na casa de Pedro Terra e, pensando em Bibiana, concluiu que era bom, muito bom estar vivo. Quando caiu em sim, as lágrimas lhe escorriam pelas barbas. Ao perceber que estava chorando, achou a coisa tão engraçada, que começou a rir, primeiro baixinho, depois numa gargalhada. E quanto mais ria, mais as lágrimas lhe vinham aos olhos. E pareceu-lhe que o riso e as lágrimas lhe aumentavam a fraqueza, e ao mesmo tempo a fraqueza lhe produzia mais riso e mais lágrimas. Teve de se apoiar na parede para não cair. Ergueu o olhar para o céu, o sol bateu-lhe em cheio na cara, como que lhe prendeu fogo nas barbas. Estar vivo, recobrar as forças, poder de novo montar a cavalo, andar à toa, livre, conversar com as pessoas, dedilhar a viola, cantar, jogar... E, principalmente, poder de novo ter mulher, comer e beber!"
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"- Se eu fosse dono do mundo, fazia algumas mudanças...
- Por exemplo...- pediu o padre.
- Acabava com essa história de trabalhar...

- Sim, e depois?

- Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho.
O vigário sorria. Aquelas palavras, partidas dum egoísta, não deixavam de ter seu valor.

-E depois?

- Dividia essas grandes sesmarias de homens como o Cel. Amaral.
- Dividia? Como? Pra que?

- Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada índio, pra cada negro.

- Não vá me dizer que ia libertar os escravos...

- E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.

(...)

- Ah! Eu ia me esquecendo! Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.

- E como é que vosmecê ia se arranjar, indo de um país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua?

- Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes...

Rodrigo fez uma pausa e ficou pensativo.
- Que mais?
- Acabava também com a velhice.

- Acabava?
- Quero dizer, ninguém envelhecia mais...
- Nem morria?

- Morrer...morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras.

O vigário mordeu o palito, fez avançar a cabeça na direção do outro:

- Vosmecê não ia também acabar com as guerras?

Rodrigo por instante pareceu confuso. Depois repondeu, lento:

- Bom...Acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando ficava tudo muito enjoado.
- Ia ser um mundo bem esquisito...

- Mas não mais esquisito que este nosso, padre.

- Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito.
- Mas hai muita coisa torta por aí.

- Que há, há...
"
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"Um dia passava a cavalo por uma casa quando viu um branco espancando um escravo; apeou e espancou o branco, deixando-o deitado no chão, quase sem sentidos. De outra feita viu dois homens que em pleno campo atacavam um viajante. Rodrigo não conhecia nenhum deles, mas achou que não podia passar ao largo. "Dois contra um é cobardia!" - gritou. Saltou do cavalo, puxou a adaga e entrou na luta. Voltou para casa trazendo o desconhecido que livrara dos assaltantes. Estavam ambos com as mãos e o rosto cheios de talhos de faca. Chegaram sangrando mas sorrindo, recordando a briga e dando grandes risadas. Fecharam-se na sala da venda e tomaram juntos uma bebedeira.
(...) Um dia viu um índio chicotear um burro que, emperrado, se recusava a andar. "Não surre a criatura!" - gritou. O outro não lhe deu ouvidos e continuou a maltratar o animal. Rodrigo ficou vermelho, precipitou-se para o índio, tirou-lhe o chicote das mãos e começou a fustigar-lhe as costas, os braços, as pernas, até que o pobre-diabo, assustado, desandou a correr. Essas histórias - sabia Bibiana - eram contadas e espalhadas pelo povoado e pelas vizinhanças. Muitos as comentavam com simpatia e concluiam: " O Cap. Cambará é um homem de bom coração." Mas outros deduziam que ele era antes de mais nada um desordeiro. Bibiana, porém, preferia resumir seus sentimentos numa frase: "É meu marido e eu gosto dele.""
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de
O TEMPO E O VENTO

ERICO VERÍSSIMO
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Na foto, Tarcisio Meira, qdo interpretou o Cap. Rodrigo na TV.
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O Cap. Rodrigo do meu devaneio é um pouco diferente do Tarcisão, mas tb tem esse jeito malandro que ele soube interpretar tão bem.