quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um certo Capitão Rodrigo



"Pouco mais de um mês depois da noite do duelo, Rodrigo deixou a cama pela primeira vez, com os membros lassos, a cabeça ôca e tonta. Caminhou até a porta da casa de Juvenal e quando olhou para a praça e avistou a figueira grande, sentiu que amava aquela árvore, aquele chão, aquele povoado. Entrecerrou os olhos, focou-os na casa de Pedro Terra e, pensando em Bibiana, concluiu que era bom, muito bom estar vivo. Quando caiu em sim, as lágrimas lhe escorriam pelas barbas. Ao perceber que estava chorando, achou a coisa tão engraçada, que começou a rir, primeiro baixinho, depois numa gargalhada. E quanto mais ria, mais as lágrimas lhe vinham aos olhos. E pareceu-lhe que o riso e as lágrimas lhe aumentavam a fraqueza, e ao mesmo tempo a fraqueza lhe produzia mais riso e mais lágrimas. Teve de se apoiar na parede para não cair. Ergueu o olhar para o céu, o sol bateu-lhe em cheio na cara, como que lhe prendeu fogo nas barbas. Estar vivo, recobrar as forças, poder de novo montar a cavalo, andar à toa, livre, conversar com as pessoas, dedilhar a viola, cantar, jogar... E, principalmente, poder de novo ter mulher, comer e beber!"
..............................................


"- Se eu fosse dono do mundo, fazia algumas mudanças...
- Por exemplo...- pediu o padre.
- Acabava com essa história de trabalhar...

- Sim, e depois?

- Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho.
O vigário sorria. Aquelas palavras, partidas dum egoísta, não deixavam de ter seu valor.

-E depois?

- Dividia essas grandes sesmarias de homens como o Cel. Amaral.
- Dividia? Como? Pra que?

- Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada índio, pra cada negro.

- Não vá me dizer que ia libertar os escravos...

- E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.

(...)

- Ah! Eu ia me esquecendo! Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo.

- E como é que vosmecê ia se arranjar, indo de um país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua?

- Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes...

Rodrigo fez uma pausa e ficou pensativo.
- Que mais?
- Acabava também com a velhice.

- Acabava?
- Quero dizer, ninguém envelhecia mais...
- Nem morria?

- Morrer...morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras.

O vigário mordeu o palito, fez avançar a cabeça na direção do outro:

- Vosmecê não ia também acabar com as guerras?

Rodrigo por instante pareceu confuso. Depois repondeu, lento:

- Bom...Acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando ficava tudo muito enjoado.
- Ia ser um mundo bem esquisito...

- Mas não mais esquisito que este nosso, padre.

- Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito.
- Mas hai muita coisa torta por aí.

- Que há, há...
"
.............................................

"Um dia passava a cavalo por uma casa quando viu um branco espancando um escravo; apeou e espancou o branco, deixando-o deitado no chão, quase sem sentidos. De outra feita viu dois homens que em pleno campo atacavam um viajante. Rodrigo não conhecia nenhum deles, mas achou que não podia passar ao largo. "Dois contra um é cobardia!" - gritou. Saltou do cavalo, puxou a adaga e entrou na luta. Voltou para casa trazendo o desconhecido que livrara dos assaltantes. Estavam ambos com as mãos e o rosto cheios de talhos de faca. Chegaram sangrando mas sorrindo, recordando a briga e dando grandes risadas. Fecharam-se na sala da venda e tomaram juntos uma bebedeira.
(...) Um dia viu um índio chicotear um burro que, emperrado, se recusava a andar. "Não surre a criatura!" - gritou. O outro não lhe deu ouvidos e continuou a maltratar o animal. Rodrigo ficou vermelho, precipitou-se para o índio, tirou-lhe o chicote das mãos e começou a fustigar-lhe as costas, os braços, as pernas, até que o pobre-diabo, assustado, desandou a correr. Essas histórias - sabia Bibiana - eram contadas e espalhadas pelo povoado e pelas vizinhanças. Muitos as comentavam com simpatia e concluiam: " O Cap. Cambará é um homem de bom coração." Mas outros deduziam que ele era antes de mais nada um desordeiro. Bibiana, porém, preferia resumir seus sentimentos numa frase: "É meu marido e eu gosto dele.""
........................................
de
O TEMPO E O VENTO

ERICO VERÍSSIMO
......................................
Na foto, Tarcisio Meira, qdo interpretou o Cap. Rodrigo na TV.
....................................
O Cap. Rodrigo do meu devaneio é um pouco diferente do Tarcisão, mas tb tem esse jeito malandro que ele soube interpretar tão bem.

6 comentários:

Laurene Veras disse...

Comentando a filosofia guasca do Capitão: Concordo sempre com ele, sim, é mt bom estar vivo, mas a parte de ter mulher eu modestamente dispenso. Dpois, tb acho, esse negócio de trabalhar, afeeee, deus não tinha mais o que inventar mesmo...(tá, eu sei, Adão e Eva, óbvio que a culpa tinha que ser dos reles mortais).Terceiramente, concordo tb com a dna Bibiana: Apesar de ser marido dela, eu tb gosto dele!

Laurene Veras disse...

Comentando os próprios posts, é o fim da várzea, né?

CoisasdeMaria disse...

heheheh so tu para comentar teus posts...
Tio Tarcizão ainda bate uma bola né?!

Fatima disse...

Gostei tanto deste livro que li duas vezes(tá bom né!).
Muito legal seu blog.
Bjs.

Laurene Veras disse...

Eu to adorando! Brigada pela visita e pelo elogio. Bjo

Anônimo disse...

Gente,eu sou tão apixonada pelo cap.Rodrigo que desde minha adolecencia eu dizia que meu filho se chamaria Rodrigo...E algum tempo depois,coloquei o nomoe do meu filhote de Rodrigo,e o cabra já tem um senso de justiço que afeee,algumas gatinhas já suspiram por ele,tem o dom da oratória,tem uma capacidade de se indgnar contra as injustiças...Quanto ao resto só quando crescer pois o mesmo só tem oito aninhos...