terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma estória triste


Terminei há uma semana o Olga, do Fernando Morais. É um livro bastante triste, porque é uma estória cheia de detalhes tristes. Mas é uma estória também comovente e bem contada, e uma aula de História. Olga nasceu na Alemanha e era militante comunista desde os 15 anos de idade. A trajetória dela na Juventude Comunista e mais tarde no alto escalão do partido é bastante impressionante. Apaixonada por estratégia militar, em nome do comunismo a moça aprendeu até mesmo a pilotar aviões. Olga era mulher de Luis Carlos Prestes e estava grávida quando foi levada para uma prisão diferente da do marido, logo após a intentona comunista. O sistema de comunicação e solidariedade no cárcere repleto de presos políticos , dentre eles Graciliano Ramos e Barão de Itararé, especialmente nas tentativas de impedirem esta Olga comunista e judia de ser deportada para a Alemanha nazista, é impressionante e dramático. O partidão também não era nenhum santo e entrarei nesse assunto depois de ler o outro lado da moeda, o que começo amanhã, mas é sempre chocante ver como a barbárie é capaz de enlamear a História de ideais de fraternidade e afins.
Um dos muitos fatos impressionantes do livro é a fibra e obstinação espartana dessa mulher. Por onde ela passava invariavalmente havia resistência e luta por dignidade. Não estou exagerando, é muito impressionante mesmo. Ela tinha bicho carpinteiro, como diz a minha avó.
Olga Benário foi executada em um campo de concentração quando tinha a minha idade. A filha estava a salvo graças à mãe de Prestes.
Sem dúvida alguma houve uma mudança, porque o mundo nunca mais foi o mesmo, nem nunca mais será. Só que ainda estamos tentando entender uma civilização que involui tão drasticamente.
É um livro extremamente triste. Mas a História tem dessas coisas, e muito mais do que se gosta de lembrar.
Leia e lembre-se.

4 comentários:

Manu disse...

Camila Morgado resumiu a estrutura da obra: é uma hist´roia que vai descendo, ficano cada vez pior, cada vez mais triste, e como sabemos o final, não resta esperança.

:'(

Mas uma história assim tem sua beleza, faz-nos sentir humanos. E depois, reencontramos a felicidade numa bandeira, na entrega, na confiança, no sacrifício, numa criança, numa luta...

E, por falar em tristezas, hoje tive uma experiência extraordinária numa peça dos clowns Les Matapeste. Numa cena, Charles morre num desastre de palhaços após um desencanto pela vida. É extremamente triste e tenro. Mas todos riem. Mas não é engraçado. A morte não estava banalizada, nem sendo gozada. A experiência inusitada foi: nós, o público, chorávamos, mas não chorávamos lágrimas, e sim risadas.

No caso de Olga, não há como chorar risadas, mas eis um desafio interessante: adaptar Olga para uma peça de clowns, sem sátiras, sem sarcasmo. Porém - imagino agora - mesmo numa adaptação para palhaços, Olga daria choro de lágrimas e não de risadas, pois talvez doesse mais ainda ver morrer quem uma vez fez rir.

Enfim, minhas divagações...

E sem tristezas, porque Charles Matapeste ressussita. E alegra mais ainda ver renascer quem uma vez vimos morrer.

CoisasdeMaria disse...

O Livro eu nao li mas vi o filme. Achava q nao ia gostar mas é muuuito bom!

Paulo Marques disse...

Oi Laurene,
Gostei do que vc escreveu sobre o livro Olga, só tenho uma curiosidade, porque vc usou a palavra "ëstória" sem H, no títuo do post? Posso estar errado mas se usa H, quando é um história real, o que é o caso da história da Olga, não é uma ficção, mas como eu disse, Não tenho certeza se é esse o conceito do uso ou Não do H, se vc puder exclarecer agradeço. Bjs

Paulo

Laurene Veras disse...

Meu querido amigo e Historiador! a História tem sido, mtas vezes, tristíssima, mas a estória da luta de Prestes e Olga é bela. A História transformou essa luta em uma narrativa mais trágica do edificante, infelizmente. Os ideias são bonitos, os desdobramentos da barbárie são terríveis. E o que o Fernando Morais faz, na minha opinião, que sempre está aberta ao debate, é uma espécie de romance em cima da História. Só por isso. Mas é História tb, sem dúvida. Bjo grande pra ti, amigo e historiador atento.