domingo, 31 de janeiro de 2010

Para Deise e Aquiles




Nunca tive o desejo de ter fillhos e apesar de gostar muito de crianças tenho uma certa fobia de bebês. Sempre me pareceram muito frágeis, muito estranhos, muito alheios e indefesos num mundo agressivo. Também detesto hospitais.
Visitei ontem uma amiga querida que havia acabado de trazer ao mundo o terceiro filho e ela insistiu muito para que eu o segurasse no colo. Pânico. Muito sem jeito eu disse que não gostaria de segurá-lo porque tinha medo "de estragar". Ela riu muito e protestou, não devia rir, os pontos da cesárea doíam. Insistiu muito e com tanto carinho e eu aceitei, meio a contragosto, meio curiosa até. Uma cena patética, uma mulher do meu tamanho pedindo orientações sobre como pegar um recém nascido no colo, ela disse que era fácil, bastava segurá-lo por trás, na nuca, e eu disse, como os gatinhos e os cachorrinhos, só segurar pela pele da nuca? Protestos, "não me faz rir"! E ria e eu ria também, porque meu deus do céu, ele é muito pequeninho e molinho! Enfim, encostei Aquiles no meu peito e ele ficou quietinho, dormia, jiboiava da última mamada. Os dedinhos tão delicados, em um dia de vida já tinham lhe cortado as unhas duas vezes, cresciam muito rápido, e não pude deixar de pensar, quanta vida nesse corpinho! Deise, mas ele é tão bonitinho, recém nasceu e nem tem cara de joelho, e ela disse, é mesmo, né, ele é uma pessoinha, "ele é tão perfeitinho", pensei. Quando me dei conta não prestava mais atenção ao que ninguém dizia, meu olhar não conseguia desviar do carinha, quietinho encostado no meu peito, e então me dei conta de que meu coração batia com uma força incomum, não parecia acelerado, parecia que batia como um tambor compassado, parecia que o universo todo era só equilíbrio e estava todo contido naquele serzinho, e eu não pensei em nada, mas com o peito retumbando eu sentia que a despeito de religiões e filosofias naquele momento tudo fazia sentido.
Dizem que é instinto, relógio biológico, o escambau, eu não sei, eu só sei que foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida e que nunca havia sentido meu coração bagunçado pulsar daquele jeito. E mais tarde, antes de dormir, eu lembrava da primeira coisa que vi quando entrei no quarto do hospital: Minha amiga deitada na cama, absolutamente radiante, e um carinha dorminhoco deitadinho do lado dela, ignorando tudo que o mundo tem de assustador, e ao mesmo tempo sendo uma espécie de chave mágica contra o medo, pelo menos contra os meus medos.
...............................................................................
Canção da Aia Para o Filho do Rei

Mandei pregar as estrelas
Para velarem teu sono.
Teus suspiros são barquinhos
Que me levam para longe...

Me perdi no céu azul
E tu, dormindo, sorrias.
Despetalei uma estrela
Para ver seme querias...

Aonde irão os barquinhos?
Com que será que tu sonhas!
Os remos mal batem n'água...
Minhas mãos dormem na sombra.

Dorme quieto, meu reizinho.
Há dragões na noite imensa,
Há emboscadas nos caminhos...

Despetalei as estrelas,
Apaguei as luzes todas.
Só o luar te banha o rosto
E tu sorris no teu sonho.

Ergues o braço nuzinho,
Quase me tocas... A medo
Eu começo a acariciar-te
com a sombra dos meus dedos...

Dorme quieto, meu reizinho.
Os dragões, com a boca enorme,
Estão comendo os sapatos
Dos meninos que não dormem...


Mario Quintana

4 comentários:

izabel disse...

È... dificil não se derreter e se impressionar com seres-humanos em miniaturas. Tive meu filho sem entender nada de crianças, sem ao menos saber agrada-lás, sabe aquela pessoa que até fazendo festinha acaba fazendo cara feia? pois é. Mas segura-lo pela primeira vez e sentir o inicio da vida ali foi o momento mais magico e aterrador que já tive. Boas vindas ao pequeno Aquiles, que nunca descubram seu calcanhar.

Guto Leite disse...

Lindo, Lau! Teu texto desbancou o poema do Quintana como texto... Como vida, lindo! =)

deise_cris_dornelles disse...

amiga,querida.fiquei emocionada com teu relato transbordado de sentimentos.quero agradecer teu carinho e atençao saiba que Aquiles gostou do teu colinho e ficou muito feliz de sido o primeiro bebe a ser segurado por vc.se sentiu aconchegado e seguro.amiga a nossa casinha estara sempre aberta pra você nos visitar e compartilhar estes momentos magicos do crescimento do nosso pequeno Aquiles.Com Carinho Deise

bastaestarvivo disse...

bonito, bom demais de ler seu texto e o poema. crianças são sempre uma nova chance pra vida né, de reinventar o mundo fazendo melhor dessa vez.