segunda-feira, 29 de março de 2010

Afugentando os lobos




Lendo as reflexões do mestre Sabato, sugestão do professor Fabio.
Lá pelas tantas "o velho " e eu dialogamos silenciosamente, enquanto ele vaticina e eu concordo com alguma relutância:

"Uma coisa que me perturba terrivelmente é o barulho. Às vezes caminhamos vários quarteirões antes de achar um lugar onde tomar um café em paz. Não que por fim achemos um bar silencioso, apenas nos conformamos em pedir que, por favor, desliguem o televisor, coisa que fazem com a maior boa vontade por se tratar de mim, mas eu me pergunto como as pessoas que vivem nesta cidade de treza milhões de habitantes fazem para achar um lugar onde conversar com um amigo."

Sinto o mesmo, velho, exatamente o mesmo. Mas te ocorre que talvez façamos cada vez mais barulho e até nos acostumemos com ele - não no teu caso - pra justamente amortecer os sentidos? Tua carta é um manifesto contra isto. Mas com toda humildade mestre, às vezes o amortecimento é urgente em mim. Essa dor de ser fragmento chegou ao nível da consciência. Creio que estamos irremediavalmente doentes de solidão.
O senhor diz:

"Acredito nos cafés, no diálogo, acredito na dignidade da pessoa, na liberdade. Sinto saudade, quase ansiedade de um infinito, mas humano, na nossa medida."

E eu por um triz de te julgar ingênuo, claro, isto sim, seria de uma arrogância sem medida...Não sei mais se acredito, velho, mas sim, anseio pelo infinito dentro de nós. Me desculpe, há dias em que talvez por imaturidade, ignorância ou pobreza de espírito mesmo, eu desespero pela melodia insana do barulho, pelo amortecimento, pela inconsciência. Não é bonito, não me orgulha, mas às vezes me ajuda a continuar, para quem sabe um dia chegar aí onde você está, no auge da rebeldia, no front da resistência.
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E então o senhor cita, e eu reproduzo, a frase de Jünger:

"Se os lobos contagiarem a massa, num mau dia o rebanho se transformará em horda."

Oxalá este dia jamais nos alcance.
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O pequeno e o grande in A resistência.
De Ernesto Sabato
Companhia das Letras
2008
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Obrigada cunhas, é um belo livro.
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Retrato de Ernesto Sabato por Álvaro Delgado.

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