sexta-feira, 18 de junho de 2010




(...) não se trata, como eu dizia, de introduzir o político, quer dizer, não se trata de utilizar a literatura para fazer passar a política e a ideologia. Pelo contrário, trata-se é de introduzir um homem que tem uma certa consciência de si próprio, do país a que pertence, da história, da cultura e tudo mais e que passa por uma visão de mundo, uma visão harmônica e que para ele é pacífica, mesmo que seja de conflito com o que está à sua volta.(...)"
José Saramago em conferência realizada na USP ao lado de José Luandino Vieira.

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Quando Benedetti estava no hospital, pouco antes de morrer, Saramago e sua mulher fizeram um apelo aos admiradores do uruguaio pelo mundo. Que não necessariamente rezassem pela recuperação de Benedetti, pensador e ativista de esquerda, ateu, mas que dissessem um de seus poemas como quem diz uma prece, desejando sua melhora. Assim foi que uma corrente de poesia e amor - sim, isso tb é amor - espalhou-se mundo afora, começando com uma pequena faísca vinda de além mar.
Saramago também era ateu, por isso deixo aqui, em sua memória, um poema de um terceiro cara que também escrevia como quem reza por um mundo melhor.

Somos quatro,
cinco (às vezes seis) amigos
- seis senhores gordos e sorridentes -
que às sextas-feiras se reúnem para
(de um modo público e secreto) demonstrar
que continuamos profundamente humanos.

Damos uma chance à humanidade às sextas-feiras
assim como os antigos burgueses
davam uma chance a Deus aos domingos.

Vitelones, emigrantes, tropicais
fomos todos crianças pobres e
recebemos muitas porradas na alma
ou na psique borboleta; nas esquinas
sombrias do inconsciente e na vergonha.

Está na cara.
Mas é claro que essas bofetadas não
foram recebidas em vão;
Secretamente, sabíamos que sofríamos
por um ideal mais alto
chamado liberdade.

Não só para nós (é óbvio), mas
para todos aqueles que, como nós,
tiveram de brigar
pelos frutos da árvore da vida.

Hoje somos quatro, cinco ou seis
senhores gordos e bem vestidos.

Conquistamos a liberdade e - naturalmente -
nos tornamos prisioneiros dela.

Essa liberdade (irmã da paz, moça sem língua)
nos oprime e nos sufoca,
pois, com medo de perdê-la,
deixamos de ser livres.

Evidentemente, essas certezas secretas
nós não revelamos aos outros quatro ou cinco,
pois nós somos intelectuais.

Votamos na esquerda, embora nos asssegurem
que ela não existe mais;
tratamos bem os nossos subalternos e
- aparentemente - somos até
pessoas queridas na comunidade.

Somos capazes de chorar
vendo um filme no qual um anarquista esfomeado
apanha da polícia por querer defender
os explorados que acabarão votando na direita.

Choramos ao ver num filme - prisioneiro de
um tempo de ficção - o menino filhodaputa
que quer se suicidar
porque sua mãe morreu de fome.

À noite, de porre, entre sonhos e roncos
prometemos adotar o menino,
que vende chicletes na esquina.

Mas, pela manhã, pessoas ocupadas que somos,
esquecemos tudo ou
fingimos que esquecemos.

Temos que preservar a nossa liberdade
e o tempo real é muito mais duro que
aquele do romance.

Somos quatro, cinco, seis amigos.
Sabemos tudo sobre Brecht, Mayakovsky, Marx.
E torcemos por Fidel.

Por isso, temos dezesseis, estourando
dezessete, dezoito anos.

Mas nossos filhos sisudos
já passaram dos cinqüenta
e acham que a arte pode ser parida sem dor.

Não pensem que não fazemos planos.
Fazemos sim.
Um dia vamos alugar um ônibus e partir
sem destino.

Com nossas banhas, nossos reumatismos e
nossas caras de palhaço
que vamos puxando por uma corda.

Enlouqueceremos as mulheres!

Esta semana não será possível
alugar o ônibus e partir, pois
há muitas coisas importantes a serem feitas.

Em parte, somos responsáveis por uma realidade
de superfície que nada tem a ver com a vida,
mas que corta rente aos ossos.

Nós, porém, fingimos que não é conosco
Assim como fingimos não perceber
a presença da moça pálida
que nos faz companhia às sextas-feiras
e cujo nome não ouso revelar.

A liberdade é uma carcereira terrível!

Fausto Wolff

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