domingo, 11 de dezembro de 2011

A boa treva

La buena tiniebla

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera un resplandor que da confianza
de modo que si sobreviene
un apagón o un desconsuelo
es conveniente y hasta imprescindible
tener a mano una mujer desnuda.

entonces las paredes se acuarelan
el cielo raso se convierte en cielo
las telarañas vibran en su ángulo
los almanaques dominguean
y los ojos felices y felinos
miran y no se cansan de mirar.

una mujer desnuda y en lo oscuro
una mujer querida o a querer
exorcisa por una vez la muerte.

Mario Benedetti

domingo, 4 de dezembro de 2011

Do meu Ser

Não
Não tenho medo
Este amor
Que eu resgato
Do degredo
Não se vê fácil
Nem é brinquedo
É coisa séria
Essência última
Da minha matéria

Laurene Veras

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O último vôo

Um pássaro morreu hoje. Pássaros morrem todos os dias, assim como pessoas, plantas, sonhos, peixes...
Um pássaro se chocou contra o vidro da minha janela. Olhei para baixo e ele agonizava com as asas abertas. Desci correndo as escadas na esperança de salvá-lo mas quando cheguei ele encolhera as asas e estava morto. Seus olhos abertos ainda não tinham adquirido a opacidade da ausência de vida. O corpinho leve ainda estava quente. Quebrara o pescoço, imaginei.
Um pássaro morreu hoje e minhas mãos ou minha vontade nada puderam para reanimá-lo. As penas azuis se recolheram e o deixei repousar em um canteiro fresco, longe do sol, longe da vida, longe do céu.
Um pássaro morreu e eu morri um pouquinho também.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Da arte de chamuscar-se


Eu quero a brasa
Do carvão recém ateado

O lume que começa
Pra ser fogaréu

Quero as faíscas
Que sobem ao céu

O incêndio
Que rouba
A lua

Eu quero brilhar
A noite nua

Fogão à lenha
Que esquenta
Mesmo depois
De não necessário

Eu quero o olhar
Do falsário
Firme e forte e intenso

Quero o fogo mais imenso
A reprovação do vigário
A destreva da bruxaria

Eu quero a luz da alegria

La petit mort


Meu chão
Minha terra
Meu grão de areia
Luminoso de sol

Das minhas pernas
És meu passo

Das linhas incertas
A seta
Indicativa
Do definitivo
Abraço.

Laurene Veras

terça-feira, 21 de junho de 2011

O PLANALTO E A ESTEPE

"A onça deixada para trás no nosso trajeto de humanização nunca se dilui completamente dentro de nós, por muitos livros lidos, viagens feitas ou debates intelectuais participados. Existe sempre uma unha ou dente de onça que se manifesta quando a ocasião é propícia. Somos considerados civilizados se somos capazes de o esconder sempre do conhecimento dos outros. Mas existe todavia um pedaço selvagem permanecendo de atalaia. E ao menor pretexto damos o bote.
Somos uma humanidade animal."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

quantas madrugadas tem a noite


...e as putas, cambas dele, do Burkina, miúdas engraçadas, gente nova, só que foder não é mais assunto da intimidade, pensas o quê, foder é profissão muito antiga, toda gente fala, fala, mas é só um assunto nenhum, principalmente quem não fode pra sobreviver num devia falar das outras, profissão delas que custa é no corpo delas, ninguém mesmo calcula – porra, muadiê, te pergunto: você dava o cu pra alimentar teus candengues? Não davas, né, mas essas gajas dão, dão tudo, porque é modo de vida já, profissão delas, familiares delas que nem sabem às vezes, há de tudo mesmo, outras dão porque gostam, outras porque já se habituaram, vêm outras possibilidades de se safarem, um puro casamento mesmo, e já não querem. Vício? Não sei, muadiê, não sei mesmo, ponho filosofias: falam os atos sexuais são alegorias da alma na caverna do amor – paixão mas, na profissão de emprestar prazeres, tudo se derrama é nos quintais dum corpo sofrido, isso eu acho...

sábado, 11 de junho de 2011

Rosa de São João


Era noite de São João.
Pagou ao delegado para prender Rosa. Pagou o dobro para que o delegado também o prendêsse e não os soltasse logo.
Anos depois, contariam a todos sobre como se conheceram, romântica coincidência, numa brincadeira de festa junina.

Laurene Veras

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Como as coisas são

Namoraram durante tantos anos que já pareciam desconhecidos. Noivaram porque é assim que as coisas são. Casamento marcado, convites enviados, vestido provado, igreja decorada. O noivo não apareceu. Surpreendentemente, atendeu ao celular. Estava em casa, de cuecas, tomando cerveja e vendo TV. Não vou, porque não estou a fim, disse. A noiva esperando dentro do carro. Os convidados cochichando. O padre suando frio. A mãe da noiva discutindo com a mãe do noivo. Marina desceu do carro, entrou na igreja calmamente, foi até o púlpito. Não chorava, não tremia. Estava linda, era uma rainha, sentia-se uma rainha. Convidou a todos, polidamente, para a festa. Na hora da dança ficou com um dos padrinhos. Este era o dia mais feliz da sua vida.
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Laurene Veras

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Desconheço autor da ilustração.

Luca Brasi tupiniquim


Era chapeador, e dos bons. Mulherengo dos bons também. Aposentado, a mulher o expulsara de casa. Lhe ofereceram vaga para exercer seu ofício, recusou. Dorme no carro e durante o dia fica sentado numa padaria de esquina. Pensávamos que ele era segurança do lugar. Olhar orgulhoso, corpulento, mas de ombros cansados, nariz de boxeador. Jeito desconfiado, o Luca Brasi da padaria.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Luanda, camaradas

sem horas para devaneio
Luanda marca meus passos
Angola agora é meu tempo
sem tempo para cansaços
nem coração para receios

eu hoje ergo meu cetro
ser, ser sempre,
ser imensamente:
eis que este é meu decreto!

Desapego

Esta língua
que diz o que pensa
mas cala o medo
da desavença:
toma, é tua

esta mente
sempre do contra
tão diferente
teimosa, revolta:
pega, é tua

estes olhos
que vêem o que enxergam
e não o que querem
estes olhos filtros de verdades
que tanto te ferem:
aceita, são teus

a mim, resta a liberdade
e meus passos
tu ficas só
eu alçarei vôo
eu, e meu pés
irremediavelmente ateus.

Laurene Veras

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nouvelle Vague

Hoje eu acordei
assim
meio Jules e Jim
meio Jeanne Moreau

Hoje eu acordei Truffaut!

Laurene Veras

domingo, 24 de abril de 2011

Walter Pax


WALTER PAX, um amigo e um dos melhores desenhistas que eu conheço, teve uma crise severa de asma e tá se fresqueando pra deixar a UTI. Depois de dias de aflição, Bárbara, mulher dele, que por sinal faz jus ao nome, contou que ontem ele deu uma melhorada. Era dia de São Jorge. Fiz uma tirinha e um poema, só pq quero mt que ele fique bom logo. Só pq ele é um cara querido pra caralho e não tem a menor graça ele ficar trancado lá enquanto a gente tá aqui fora, curtindo esses belos dias de outono.
Pra conhecer alguma coisa do talento do cara clica aqui.
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Para Walter Pax Rodrigues

Gritar
com pulmões imensos:
- Como é bom estar vivo!
-Como é bom estar vivo!
-Como é bom estar vivo!

Eu, Capitão Rodrigo.

Laurene Veras

sábado, 16 de abril de 2011

incandescência

chove

uma névoa azulada
quer ser asa

mas sobe
um espiral
em brasa

ventos
e vapores
de mágoa

Laurene Veras

quarta-feira, 13 de abril de 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Death and Life


Colhe a tua rosa, enquanto podes  
Gather ye rosebuds while ye may ─ Robert Herrick (1591 – 1674 )
Colhe a tua rosa, enquanto podes. 
O velho tempo ainda corre. 
Compõe canções, sonetos, odes, 
Compõe a vida que não morre.   
Faz da existência um infinit
Poema humano, belo e puro! 
Põe tua alma nesse grito escrito 
Porque há de o corpo entrar no escuro!   
Escreve... enquanto inda há alegria! 
Pois, pouco a pouco, tua beleza 
Se entregará à melancolia, 
Essa irmã gêmea da tristeza.   
Transforma o tempo deprimido 
Com tua beleza! Vai! Declama!
 Pois, logo, logo, apodrecido, 
Adubarás somente a grama!
 
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Mais um Klimt: "Death and Life"

domingo, 10 de abril de 2011

Protesto contra a libertação de Ricardo Neis




do Largo Zumbi dos Palmares (EPATUR) até o Palácio da Justiça
Travessa do Carmo até Praça Marechal Deodoro, 55
Porto Alegre, Brazil
Concentração das 18h às 19h. Início da marcha às 19h.
Venha a pé (ou de bici, skate, patinete, pogobol, cadeira de rodas ou patins) manifestar a nossa indignação com a decisão da justiça de deixar Ricardo Neis responder pelos seus crimes em liberdade, pondo assim mais pessoas em risco ao deixar uma pessoa tão perigosa solta pela cidade.

Tragam cartazes, faixas, canções e muita energia positiva para marcharmos até o palácio da justiça e mostrarmos que é só com coisas boas que conseguimos superar as coisas ruins.

*Não é uma manifestação de ciclistas sobre as bicicletas mas uma manifestação por justiça.
Fonte: Facebook : http://www.facebook.com/home.php#!/event.php?eid=106523686099027

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ado ado ado cada um no seu quadrado!

Este desenho eu fiz para estas pessoas que pensam serem o fim último do Big Bang. Que o diga o excelentíssimo senhor Bolsonaro.
Tenho dito.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Casa é um lugar que se encontra

 Reproduzo abaixo o que o amigo Kady partilhou no facebook. Para ver na fonte, clica aqui.

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Fazer poesia – e outros projectos..., entrevista a Ondjaki

A propósito do lançamento de livros em Luanda, na Associação Chá de Caxinde, no dia 23 de Março, em Luanda

Como é estar de regresso à poesia?
É uma satisfação. Faz-se poesia porque se precisa dela, ou de a partilhar. Mas sobretudo fazer poesia é uma necessidade. Nem sempre é fácil publicar um livro de poesia…
Porquê?
Porque se pensamos no público, no leitor… Quer dizer, é um género mais complicado, menos acessível, menos fácil. Escreve-se um poema como uma urgência interna, e por vezes há uma estória (mais íntima) por detrás do poema. Mas é preciso aceitar que a poesia é também mistério… Nem tudo é claro, explícito. Faz parte. O que quero dizer é que não sei bem como o leitor vai encarar o que lá está escrito, o que foi dito. Mas de qualquer modo, eu sei, este receio não faz sentido nenhum, cada leitor recebe os materiais de escrita do seu modo e assim funciona a literatura. Escrevo primeiro para mim, sobretudo no caso da poesia, mas tenho receio que os meus poemas por vezes sejam um pouco herméticos ou mesmo chatos…
E a escrita em geral, como vai?
A escrita em geral são os dias. Penso que muitas vezes a luta é essa, ir decidindo que caminhos escolher, prosa, poesia, também os livros infantis. Mas vivendo, observando, estamos sempre a escrever.
Continua com o trabalho dos livros infantis?
Sim, agora mesmo em Luanda apresentámos o livro O leão e o coelho saltitão, que foi uma experiência muito boa, fiz uma adaptação de um conto Luvale, que nem era para crianças. Adaptei o conto, inventei algumas partes, incluí músicas que também inventei, acho que me diverti. E continuo a pensar que é muito importante neste momento, em Angola, trabalharmos este género. reconstruir o país também passa pelo trabalho da nossa literatura.
Reconstruir o país pelos livros, pela cultura…
Claro. Cada um tentando contribuir como pode. Está muita coisa a ser feita, mas é preciso também, além das estradas e pontes, trabalhar com a cultura, com os livros, com os hábitos de leitura.
E falta muito?
Falta sempre muito, num país em reconstrução. Trata-se de uma tarefa gigantesca, que passará pelos esforços da população e do governo também. É preciso retrabalhar as ideias, os ideais, os valores. Retrabalhar constantemente a democracia, habituarmo-nos a expressar a nossa opinião e que os nossos dirigentes nos possam escutar, e não simplesmente fingir que escutam.
fotografia de Michael Hughesfotografia de Michael Hughes

Está trabalhando em outros projectos?
Como digo, estamos sempre a escrever. Terminei a adaptação de um “libretto”, para uma ópera juvenil, que vai ser feita em Portugal, isto é, é uma ópera baseada num conto tibetano. Já estou a trabalhar num novo livro infantil e num novo romance.
O que falta fazer?
Filmes, séries. Queria colaborar com a televisão em novos seriados ou filmes. Há projectos em curso, com a Geração 80, com o Mário Bastos e outros interessados em fazer coisas novas e de qualidade.  Há muitas ideias e projectos, mas há pouco dinheiro!
E documentários?
Estou já a trabalhar num novo projecto. Vai ser algo muito interessante, tem a ver obviamente com Angola, com a música e com Luanda. Estamos na fase da dita ‘captação de cumbú’, mas não é fácil.
Vai continuar escrevendo poesia?
Vou continuar a escrever aquilo que fizer sentido para mim: novas ideias, novas abordagens, ainda quero publicar a minha peça de teatro Os vivos, o morto e o peixe-frito… Falta fazer muita coisa, mas estamos prontos. Tenho estado envolvido num trabalho com o Rui Sérgio Afonso (fotógrafo) e cada vez estou mais convencido que esta geração tem muito a dar. Já se vê pela música, pela fotografia e dança, muita coisa nos livros, e falta trabalharmos e desenvolvermos o nosso cinema, de modo criativo, interessante, e nacional, isto é, tratarmos os materiais nossos de um modo moderno, africano mesmo “prá frentéx”! Isso é que vai ser uma festa. E acredito que vai acontecer… Já está a acontecer.

por Paulinho Assunção
Cara a cara | 27 Março 2011 |

quarta-feira, 30 de março de 2011

Se ao menos eu permanecesse aquém

Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que,desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá Carneiro
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Ilustração minha, Laurene Veras

sexta-feira, 25 de março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

alimento dos espíritos indóceis

" A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com a vida do modo como a vivem. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações.Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa, é um ...modo astuto que inventamos para nos mitigar a nós mesmos pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a ser sempre os mesmos enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos." MARIO VARGAS LLOSA
e eu humildemente assino embaixo
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sábado, 19 de março de 2011

Perto do céu

Ismália 
Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
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Ilustração do gênio Eduardo Uchôa

terça-feira, 15 de março de 2011

Le Baiser


o melhor beijo
é aquele
que o desejo
não espera:

beijo de lábios-quimera


Laurene Veras
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Escultura: le baiser, por Constantin Brancusi, 1910.