terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Crepuscular ascendente



Quem me dera
retornar
deste obscuro
estar sofrendo

Luzir na aurora
e ainda brilhar
no anoitecendo.

Laurene Veras
....................
Foto: crepúsculo da janela do meu quarto. Zona sul, Porto Alegre, RS.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Angústia



Sentir o abismo por perto
e não divisar a neblina

o otimismo
um retrocesso

o futuro
asfixia

atravessar a noite desperto
nem descansar
nem sorrir

o que ontem me afligia
hoje inda é o porvir

Laurene Veras
....................
Ilustração, Marjane Satrapi, de Persépolis

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Media Luna

a lua
pela metade

imensa
e rente
aos telhados
da cidade

olha!
olha pela janela!

linda lua
amarela
lua bela.

Laurene Veras

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Desvão da memória


"A razão em estilhaços:
Quando me perdi
de mim,
me esqueci.
Bati com a cabeça
no mármore do cansaço."

Laurene Veras
.....................
Foto minha. Cemitério da Santa Casa de Porto Alegre.

Interiores



"Você me vê
de ângulos que desconheço
de longe
de perto
de canto
e de centro

às vezes
pareço
que vc me vê
de dentro."

Laurene Veras
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Foto by: Mauren Veras

domingo, 9 de janeiro de 2011

A Hora


Antigamente, mas não muito, porque não sou antiga, eu temia a morte. Imaginava que, inimigo invisível, a morte fosse como uma serpente silenciosa que um dia chegaria de repente e num susto, no bater de asas de um beija flor, levaria um dos meus. Foi o que ela fez com o Guga, amigo de adolescência, há 19 anos. Foi uma tragédia, ele tinha 17, e ela, a magra, foi mesquinha, egoísta, sádica. Desde aquele tempo tenho me esquivado dela e tentado antecipar seus passos, conhecer o inimigo. Me recusei a comparecer ao funeral de meus avós paternos, poucos anos depois de ela ter nos roubado o Guga. "Eles não estarão lá" eu dizia, mas ela, ela estaria, e eu não estava preparada. Cursei graduação em Filosofia, e quando me perguntavam o porque da aparentemente excêntrica escolha, eu não sabia responder. Um dia um professor, citando Cícero, disse que "Filosofar é preparar-se para a morte." Bingo! Ali estava minha escolha, a controversa escolha, que para a maior parte das pessoas não passou de um capricho adolescente que me levaria ao eterno desemprego. Não foi um capricho, foi um treinamento, uma espécie de preparação para um sacerdócio. A escola espartana, como a batizamos, eu e a Érica. Eu tentava estar pronta para o próximo assalto. Não temia a própria morte, algumas vezes a desejei, nunca a procurei. Eu rejeitava ser separada dos meus. Durante anos a morte foi tema constante, nos meus estudos, nos meus poemas, e mais recentemente, nos meus desenhos.
Ontem foi o velório da minha avó materna, a quem eu amei profundamente. "É a hora", pensei. Estou pronta. Vou encarar a magra nos olhos e dizer tudo que eu tenho direito, dizer que ela é má, que ela não merece a compania da minha avó, que ela é sádica e não será, jamais, bem-vinda. Ontem eu conheci meu inimigo, e firmamos um acordo de paz. A morte da minha avó não foi má, ela foi angélica. Há meses sofríamos sabendo que a vó também sofria, no hospital, lutando contra uma doença sobre a qual ela não tinha nenhuma chance. Meses de mãos atadas, com o peito sempre sobresssaltado. A morte da minha avó não veio sorrateira e maquiavélica. Ela nos preparou, chegou devagar, e delicadamente levou a vó pela mão, libertando-a de inúmeros tubos, agulhas, chagas, dores, analgésicos, sedativos, inconsciência e solidão. Ontem olhei, pela primeira vez, para o rosto da morte, refletido no rosto pálido e cansado do cadáver da minha avó, e pensei, obrigada minha amiga, obrigada.
Existem várias mortes.
Isto tudo que escrevo agora é para dizer que eu estou feliz, porque além de a minha avó ter se libertado de uma vida não mais vivida, eu finalmente abracei meus votos, eu também me libertei.
Ontem eu me libertei do medo.
Hoje estou pronta para viver.
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

In Memoriam





Nossa avó estava na UTI lutando pela vida há semanas. Hoje publiquei no facebook a primeira tira ali acima. Horas depois soubemos que a vó não resistiu, então desenhei a segunda. Por último, uma foto de maio, no dia das mães, eu, vó e minha irmã Mauren.
A vó Lídia foi muito amada por toda a família, era uma baixinha guerreira, uma grande pessoinha admirável. Deixo aqui meu adeus, e só não fico mais triste porque sei que pelo menos agora ela não está mais sofrendo. Na minha memória, a vó estará sempre presente, com muitos beijinhos e carinhos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Kianda



A Kianda é normalmente representada como uma figura feminina que vive na água dos rios, lagos e oceanos de Angola. Diferente da sereia européia ela não tem a metade peixe. Bom, essa é a minha interpretação da Kianda da Praia do Bispo. É amador, mas é meu.