domingo, 9 de janeiro de 2011

A Hora


Antigamente, mas não muito, porque não sou antiga, eu temia a morte. Imaginava que, inimigo invisível, a morte fosse como uma serpente silenciosa que um dia chegaria de repente e num susto, no bater de asas de um beija flor, levaria um dos meus. Foi o que ela fez com o Guga, amigo de adolescência, há 19 anos. Foi uma tragédia, ele tinha 17, e ela, a magra, foi mesquinha, egoísta, sádica. Desde aquele tempo tenho me esquivado dela e tentado antecipar seus passos, conhecer o inimigo. Me recusei a comparecer ao funeral de meus avós paternos, poucos anos depois de ela ter nos roubado o Guga. "Eles não estarão lá" eu dizia, mas ela, ela estaria, e eu não estava preparada. Cursei graduação em Filosofia, e quando me perguntavam o porque da aparentemente excêntrica escolha, eu não sabia responder. Um dia um professor, citando Cícero, disse que "Filosofar é preparar-se para a morte." Bingo! Ali estava minha escolha, a controversa escolha, que para a maior parte das pessoas não passou de um capricho adolescente que me levaria ao eterno desemprego. Não foi um capricho, foi um treinamento, uma espécie de preparação para um sacerdócio. A escola espartana, como a batizamos, eu e a Érica. Eu tentava estar pronta para o próximo assalto. Não temia a própria morte, algumas vezes a desejei, nunca a procurei. Eu rejeitava ser separada dos meus. Durante anos a morte foi tema constante, nos meus estudos, nos meus poemas, e mais recentemente, nos meus desenhos.
Ontem foi o velório da minha avó materna, a quem eu amei profundamente. "É a hora", pensei. Estou pronta. Vou encarar a magra nos olhos e dizer tudo que eu tenho direito, dizer que ela é má, que ela não merece a compania da minha avó, que ela é sádica e não será, jamais, bem-vinda. Ontem eu conheci meu inimigo, e firmamos um acordo de paz. A morte da minha avó não foi má, ela foi angélica. Há meses sofríamos sabendo que a vó também sofria, no hospital, lutando contra uma doença sobre a qual ela não tinha nenhuma chance. Meses de mãos atadas, com o peito sempre sobresssaltado. A morte da minha avó não veio sorrateira e maquiavélica. Ela nos preparou, chegou devagar, e delicadamente levou a vó pela mão, libertando-a de inúmeros tubos, agulhas, chagas, dores, analgésicos, sedativos, inconsciência e solidão. Ontem olhei, pela primeira vez, para o rosto da morte, refletido no rosto pálido e cansado do cadáver da minha avó, e pensei, obrigada minha amiga, obrigada.
Existem várias mortes.
Isto tudo que escrevo agora é para dizer que eu estou feliz, porque além de a minha avó ter se libertado de uma vida não mais vivida, eu finalmente abracei meus votos, eu também me libertei.
Ontem eu me libertei do medo.
Hoje estou pronta para viver.
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4 comentários:

j. e. ferreira disse...

Laurene,

Profunda solidariedade (sem pieguismos) no seu encarar a Iniludível. De resto, eu não saberia o que dizer.
Abraço,
Do seu saudoso amigo,
j.e.

Laurene Veras disse...

Obrigada Zé. Tb sei das tuas perdas. Continuo descrente, não tenho fé, mas o interessante é que isto é o que mais me consola. De resto, é como eu já disse, não estou triste. Dá um sentimento esquisito no começo, como uma "alteração na força", parafreseando Obi Wan, mas tá td na paz. Bj e carinho.

Guto Leite disse...

Já tinha deixado meus votos no outro post, Lau, e os redobro aqui. Meus pêsames mesmo! Ademais, me deste um sorriso pela tua vitória, pela paz da tua avó e pela sensibilidade do teu relato. Um beijo grande.

Laurene Veras disse...

Tem o cheiro dela num chale que a mãe trouxe para casa. Fiquei um pouco triste afinal. Inevitável.