quarta-feira, 22 de junho de 2011

Da arte de chamuscar-se


Eu quero a brasa
Do carvão recém ateado

O lume que começa
Pra ser fogaréu

Quero as faíscas
Que sobem ao céu

O incêndio
Que rouba
A lua

Eu quero brilhar
A noite nua

Fogão à lenha
Que esquenta
Mesmo depois
De não necessário

Eu quero o olhar
Do falsário
Firme e forte e intenso

Quero o fogo mais imenso
A reprovação do vigário
A destreva da bruxaria

Eu quero a luz da alegria

La petit mort


Meu chão
Minha terra
Meu grão de areia
Luminoso de sol

Das minhas pernas
És meu passo

Das linhas incertas
A seta
Indicativa
Do definitivo
Abraço.

Laurene Veras

terça-feira, 21 de junho de 2011

O PLANALTO E A ESTEPE

"A onça deixada para trás no nosso trajeto de humanização nunca se dilui completamente dentro de nós, por muitos livros lidos, viagens feitas ou debates intelectuais participados. Existe sempre uma unha ou dente de onça que se manifesta quando a ocasião é propícia. Somos considerados civilizados se somos capazes de o esconder sempre do conhecimento dos outros. Mas existe todavia um pedaço selvagem permanecendo de atalaia. E ao menor pretexto damos o bote.
Somos uma humanidade animal."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

quantas madrugadas tem a noite


...e as putas, cambas dele, do Burkina, miúdas engraçadas, gente nova, só que foder não é mais assunto da intimidade, pensas o quê, foder é profissão muito antiga, toda gente fala, fala, mas é só um assunto nenhum, principalmente quem não fode pra sobreviver num devia falar das outras, profissão delas que custa é no corpo delas, ninguém mesmo calcula – porra, muadiê, te pergunto: você dava o cu pra alimentar teus candengues? Não davas, né, mas essas gajas dão, dão tudo, porque é modo de vida já, profissão delas, familiares delas que nem sabem às vezes, há de tudo mesmo, outras dão porque gostam, outras porque já se habituaram, vêm outras possibilidades de se safarem, um puro casamento mesmo, e já não querem. Vício? Não sei, muadiê, não sei mesmo, ponho filosofias: falam os atos sexuais são alegorias da alma na caverna do amor – paixão mas, na profissão de emprestar prazeres, tudo se derrama é nos quintais dum corpo sofrido, isso eu acho...

sábado, 11 de junho de 2011

Rosa de São João


Era noite de São João.
Pagou ao delegado para prender Rosa. Pagou o dobro para que o delegado também o prendêsse e não os soltasse logo.
Anos depois, contariam a todos sobre como se conheceram, romântica coincidência, numa brincadeira de festa junina.

Laurene Veras