sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ao desconcerto do mundo

Mas não é?
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Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m´espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.

Luís Vaz de Camões 

Uma fábula sobre a fábula



Vivendo e aprendendo. Uma das melhores decisões que já fiz na vida foi entrar na graduação da Letras da FAPA. Valeu Francine Spinelli! ;)
Esse eu conheci hoje através da professora Mara Jardim. Mara de maravilhosa.
Malba Tahan era o pseudônimo de um escritor e matemático brasileiro chamado Julio César de Mello e Souza.

Lenda Oriental
Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!)
Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:
- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Verdade!
- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!
Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impudicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah!
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid...
Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas.
Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.
- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.
- Como se chama?
- A Acusação!
- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.
- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!
Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.
E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Vestiu-se com riquíssimos trajos, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:
- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Fábula!
- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula: Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!
Minha vida querida. Tahan, Malba. Rio de Janeiro: Conquista, 1957, p.93-98.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Fico besta quando me entendem - entrevistas com Hilda Hilst

Uma compilação de entrevistas da escritora Hilda Hilst ao longo de décadas, na organização primorosa de Cristiano Diniz. Editora Biblioteca Azul. São Paulo, 2013.
Fisicamente o livro já é lindo de saída. Capa dura, fica em pé, rs, com ilustrações da própria Hilda. A arte é muito caprichada.
Uma aula de poética, ou para quem também gosta, uma autobiografia que se constrói através de um mosaico. É daqueles que a gente lê freando a vontade para que não acabe muito depressa.
De aquecer a mais dura alma nesse inverno glacial.
Meu último comentário é: compra e lê. La garantía no soy yo, es la Hilda Sabilda!




sábado, 20 de julho de 2013

Hilda Hilst, a estrela aldebarã

De tanto te pensar

De tanto te pensar, me veio a ilusão. 
A mesma ilusão 
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua. 
De te pensar me deito nas aguadas 
E acredito luzir e estar atada 
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada, 
Mas acredito em mim o ouro e o mundo. 
De te amar, possuída de ossos e abismos 
Acredito ter carne e vadiar 
Ao redor dos teus cismos. 
De nunca te tocar 
Tocando os outros 
Acredito ter mãos, acredito ter boca 
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade 
Me vem a fantasia de que 
Existo e Sou. 
Quando sou nada: égua fantasmagórica 
Sorvendo a lua n'água.

Hilda Hilst

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Poema Palito

Este trabalho foi um projeto que ficou em exposição na livraria Palavraria e no Centro Cultural Erico Veríssimo em 2008. Artistas plásticos gaúchos fizeram uma releitura gráfica de poemas de autores também gaúchos. Quem trabalhou com meu poema foi Jane Machado, que fez uma litogravura. Eu amei!
Clica na imagem para ver ampliado.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Noite de vento, noite dos mortos...

Segunda-feira tem saideira do FestiPoa com a presença de ninguém menos do que Tabajara Ruas para falar de ninguém mais além do inesquecível Erico Veríssimo e seus personagens. Imperdível, né, vai que o Capitão Rodrigo também dá uma apeada por lá...

Mais detalhes aqui.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Lavei a alma com o bate-papo do cartunista argentino Liniers e Fabio Zimbres ontem no Festipoa. Se não fosse tudo isso de cartunista o Liniers se daria bem com stand up comedy, ele é muito divertido, carismático, enfim, macanudo!
Contrariando uma rígida regra pessoal sobre filas imensas ganhei um autógrafo no meu Bonjour, uma foto e uma beijoca. Bom demais!
Para quem quiser comprar a obra do Liniers, vale a pena um pulinho na livraria mais charmosa da cidade, a Palavraria.
Destaque para o impagável Rafael Correa em sua cobertura em quadrinhos do Festipoa Literária. Passa lá no blog para conferir isso e muito mais, tá matando a pau.




sábado, 11 de maio de 2013

Festipoa Literária 2013

Fantástico o bate-papo com Cristóvão Tezza, Altair Martins e Luiz Ruffato na abertura do evento. Uma baita aula sobre o amor pela escrita e pela leitura.
Para saber mais sobre os eventos da melhor festa da literatura de Porto Alegre clica aqui.



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Caim






o açoite do medo no volume máximo
antecipando o golpe próximo
 
o silêncio não é opção

Munch profético
muito além do pincel tétrico

o Horror
do grito
sem som.

Laurene Veras