sábado, 20 de julho de 2013

Hilda Hilst, a estrela aldebarã

De tanto te pensar

De tanto te pensar, me veio a ilusão. 
A mesma ilusão 
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua. 
De te pensar me deito nas aguadas 
E acredito luzir e estar atada 
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada, 
Mas acredito em mim o ouro e o mundo. 
De te amar, possuída de ossos e abismos 
Acredito ter carne e vadiar 
Ao redor dos teus cismos. 
De nunca te tocar 
Tocando os outros 
Acredito ter mãos, acredito ter boca 
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade 
Me vem a fantasia de que 
Existo e Sou. 
Quando sou nada: égua fantasmagórica 
Sorvendo a lua n'água.

Hilda Hilst

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