quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

eu sou o verso

meus poemas não falam de amor
não falam
de primaveras

meus poemas não falam
deveras
de azuis, de céus, ou de sóis

não falam de saudade
nem de pele
muito menos
de incômodas reticências

(não gosto de reticências)

meu poema
é um grito agudo
de desespero
diante
da tua ausência

meus poemas não falam da lua
não dizem nada sobre o ser
e a existência
meus poemas não querem saber
da essência
nem da métrica
ou de azuis, de céus, ou de sóis

meu poema sou eu
presa e machucada
peixe numa emboscada
sufocando entre mil anzóis




quinta-feira, 11 de dezembro de 2014


quero só a noite
as vontades veladas
o frescor da brisa
o sexo revelado
à meia luz

a ausência de ruído
a não necessidade de se estar vestido
a solidão da penumbra

o poder de ser
sem máscaras
sem salamalaques

dormir com o cabelo molhado
fumar na sacada

quero minhas flores
que a chuva molhou
quero a íntima imensidão
de ser quem eu sou


Laurene Veras

domingo, 30 de novembro de 2014

sem nome

os pesadelos
ásperos
relhos
sulcando a pele
macia do sono
transformando
toda
a noite
em abandono
mastigando
o curativo
do descanso
me tornando
outro ser vivo:

cão sem dono
em desavanço

Laurene Veras



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Flores partidas

Baobá, Madagascar. Fotografia de Beth Moon.


e essa falsa alegria
que não desgruda?

é muda
de um baobá

o ressentimento
de raízes intrusas
irrompe com fúria

setenta e cinco quilos de terra
comprei setenta e cinco quilos de terra
(agora eu entendo)

para te soterrar
para te sufocar

para que nascessem flores
no teu lugar

erva daninha
quanto mais eu arranco
mais sem chão eu fico

setenta e cinco quilos de terra
para alimentar teu inço

Laurene Veras

domingo, 27 de abril de 2014

A vovó e o Genérico


Tava eu na farmácia aguardando minha vez no atendimento, desesperada por um anti-histamínico, enquanto a atendente suava para tentar convencer uma velhinha de que o remédio dela estava em falta e que ela devia levar o genérico. Lá pelas tantas a atendente insistiu, e a velhinha, que estava sentada numa cadeira, fez uma carinha muito marota, olhou para o lado e sacudiu a cabeça em negativa veemente. Bah, daí eu saí da minha sombra e dei uma gargalhada, pq foi muito fofo e divertido. Então a neta dela disse que era sempre a mesma luta, ela não confiava em genéricos e preferia ficar sem a medicação do que usar outro além do que o médico tivesse receitado. Daí a senhora em questão se manifestou e me contou o seguinte:
- Eu não confio em genéricos, não adianta. Esses tempos adotei um filhote de gato branco, o filhote cresceu e o pelo escureceu, daí eu batizei ele de Genérico, pronto, o nome do gato agora é Genérico.
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O desenho também é meu. Lápis de cor e nankin.

sábado, 22 de março de 2014

O bom e velho tio Nico


"...porque o homem que quiser ser bom em todos os aspectos terminará arruinado entre tantos que não são bons." Nicolau Maquiavel, O Príncipe. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2010.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Ela vai

Fui assistir. É fraco, mas valeu. Deve ser bom poder pegar o carro as vezes e fugir pelo interior da França sem dar satisfação pra ninguém.


domingo, 2 de março de 2014

Alalaô para os bárbaros



O carnaval é a época em que as hordas liberam seus instintos mais básicos – para não dizer baixos – e saem ensandecidas pelas ruas e estradas a procura de liberação para seus egos balofos que estão amordaçados por um baço verniz de civilidade.
            Aqui na praia os mercados são pequenos e nos grandes feriados cada metro quadrado e cada pacote de papel higiênico são disputados com a fúria de matadores de dragões.
            Ontem, sábado de carnaval, tive a brilhante ideia de acompanhar a vó a um desses mercados em busca de víveres para o feriado. A lotação do lugar era desanimadora, mas como não apenas é preciso saber viver, mas também é fundamental comer e limpar a bunda, vestimos nossas armaduras e encilhamos nossos Roncinantes de quatro rodinhas.
            Encurralada entre os corredores do estabelecimento, eu, que havia conseguido um daqueles carrinhos pequenos, ou seja, que garante maior mobilidade por entre a turba, deixei algumas compras no carrinho, o qual foi eticamente posicionado em um lugar que não dificultasse a passagem dos demais visigodos, e adentrei outros corredores procurando o que faltava, deixando o carrinho a minha espera. Nem eu mesma consigo imaginar a minha cara quando, ao voltar ao local, me deparei com a caridade de algum bom samaritano que cometeu a boa ação de ser gentil consigo mesmo: o mentecapto, que estava de posse de um carrinho grande, simplesmente tirou minhas compras do carrinho pequeno, o qual EU estava usando, e colocou no seu, escapando sorrateiramente com o meu carrinho e deixando o trambolho de herança para mim, para que eu atravessasse a torre de babel aos trancos e barrancos enquanto o bom cristão fazia suas próprias compras com o carrinho menor.
            Fico pensando na expressão desse cidadão se eu o tivesse flagrado no ato, qual seria a desculpa? Esse tipo de gente é o mesmo que vai ao mercado em horário de movimento, atropela velhinhas, não pede desculpas, e depois ainda sai alardeando aos quatro ventos que gente velha tem que ficar em casa esperando a morte chegar para não atrapalhar as pessoas mais importantes da sociedade, ou seja, eles, os selvagens.
            Como eu não me considero uma pessoa carnavalesca, e nesse sentido quero dizer que não me considero uma integrante da tribo do Conan, eu ri. E rindo vou enviar uma carta ao Papa Chiquinho – diz que ele responde pessoalmente – pedindo que convoque um concílio para propor um décimo primeiro mandamento: “Não furtarás o carrinho de compras do próximo nos sábados de carnaval.”.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O que?



Para Gisélle Razera


Que posso fazer eu além de chorar meus mortos
 e meus vivos?
Que consigo eu fazer
se a vida é isto?

Meus amigos,
não me exijam.

Aqui, 
aqui também estou
codo a codo.
Graças, também, a Benedetti.

Me desmancho
e daqui a bem logo, nada resta.

Que sou eu?

Uma fresta.

E se um de vocês conseguir enxergar além
do que seja
então
amém.
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O desenho é meu.


Mais Lupe e mais Hilda Hilst



Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas em que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida.
Uiva se quiseres
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa.
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida.
Escancara a tua boca
Regouga:  A ALMA. A ALMA DE VOLTA.

"Poemas aos homens do nosso tempo", parteVII, in Júbilo memória, noviciado da paixão. São Paulo, Globo. 2001.
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A ilustração é da grande Lupe, para ver mais da inigualável Lupe, clica aqui.

Cascos, carícias & outras crônicas



Depois do livro de entrevistas da Hilda Hilst, o belíssimo Fico besta quando me entendem, estou lendo a coletânea de crônicas que ela publicou no Correio Popular de Campinas entre 1992 e 1995. Algumas são de um humor raro e contundente, muitas são pessimistas, e quase todas extremamente irônicas e descaradamente debochadas. 
Então aí vai um trechinho que me é particularmente querido.
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Essa modesta articulista que sou eu escreveu textos e poemas belíssimose compreensíveis, e tão poucos leram ou compraram meus livros...Mas agora com essas crônicas...que diferença! Como telefonam indignados para o por isso eufórico editor deste caderno, dizendo que sou nojenta! Obrigada, leitor; por me fazer sentir mais viva e ainda por cima nojenta! Isso é tão mais, tão mais do que nada! Como disse Schücking: "Os artistas são sensíveis e vivem, como os deuses, do incenso. Sem incenso não há deuses. A estima dá asas a seus talentos". Permitam-me terminar com uma parábola-pergunta: por que os dentes caem quando estamos velhos, mas ainda vivos, e permanecem eternos nas nossas límpidas e luzidias caveiras? 

segunda-feira, 21 de dezembro de 1992
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HILST, Hilda. Cascos, carícias e outras crônicas. São Paulo: Globo, 2006.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Cápsulas de sabedoria litorânea


  • Dica 1 - Se você sair para pedalar, não importa quanta amplidão exista numa praia pequena e semi-habitada, não importa nem mesmo se você for dar uma volta de bicicleta em Marte, sempre vai aparecer uma criança do nada e se jogar na frente da bike.


  • Dica 2 - Se você for dar uma pedalada grande, ou mesmo que seja pequena, e estiver de biquíni, não tenha a brilhante ideia de sentar na areia quando der aquela paradinha para beber água, do contrário você ganhará inteiramente grátis uma mega esfoliação na bunda quando sentar novamente no selim e faltarem só quarenta minutos de pedal para chegar novamente na praia de origem.


  • Dica 3 - Se você for pedalar para longe certifique-se de ir na direção contra o vento na ida, pois na volta você estará cansado, e com o vento contra e a bunda assada da areia no selim sua aventura pode se transformar num purgatório. Lembre-se disso especialmente se estiver planejando pedalar QUARENTA MINUTOS na ida.




quinta-feira, 16 de janeiro de 2014