terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O que?



Para Gisélle Razera


Que posso fazer eu além de chorar meus mortos
 e meus vivos?
Que consigo eu fazer
se a vida é isto?

Meus amigos,
não me exijam.

Aqui, 
aqui também estou
codo a codo.
Graças, também, a Benedetti.

Me desmancho
e daqui a bem logo, nada resta.

Que sou eu?

Uma fresta.

E se um de vocês conseguir enxergar além
do que seja
então
amém.
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O desenho é meu.


Mais Lupe e mais Hilda Hilst



Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas em que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida.
Uiva se quiseres
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa.
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida.
Escancara a tua boca
Regouga:  A ALMA. A ALMA DE VOLTA.

"Poemas aos homens do nosso tempo", parteVII, in Júbilo memória, noviciado da paixão. São Paulo, Globo. 2001.
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A ilustração é da grande Lupe, para ver mais da inigualável Lupe, clica aqui.

Cascos, carícias & outras crônicas



Depois do livro de entrevistas da Hilda Hilst, o belíssimo Fico besta quando me entendem, estou lendo a coletânea de crônicas que ela publicou no Correio Popular de Campinas entre 1992 e 1995. Algumas são de um humor raro e contundente, muitas são pessimistas, e quase todas extremamente irônicas e descaradamente debochadas. 
Então aí vai um trechinho que me é particularmente querido.
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Essa modesta articulista que sou eu escreveu textos e poemas belíssimose compreensíveis, e tão poucos leram ou compraram meus livros...Mas agora com essas crônicas...que diferença! Como telefonam indignados para o por isso eufórico editor deste caderno, dizendo que sou nojenta! Obrigada, leitor; por me fazer sentir mais viva e ainda por cima nojenta! Isso é tão mais, tão mais do que nada! Como disse Schücking: "Os artistas são sensíveis e vivem, como os deuses, do incenso. Sem incenso não há deuses. A estima dá asas a seus talentos". Permitam-me terminar com uma parábola-pergunta: por que os dentes caem quando estamos velhos, mas ainda vivos, e permanecem eternos nas nossas límpidas e luzidias caveiras? 

segunda-feira, 21 de dezembro de 1992
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HILST, Hilda. Cascos, carícias e outras crônicas. São Paulo: Globo, 2006.