domingo, 2 de março de 2014

Alalaô para os bárbaros



O carnaval é a época em que as hordas liberam seus instintos mais básicos – para não dizer baixos – e saem ensandecidas pelas ruas e estradas a procura de liberação para seus egos balofos que estão amordaçados por um baço verniz de civilidade.
            Aqui na praia os mercados são pequenos e nos grandes feriados cada metro quadrado e cada pacote de papel higiênico são disputados com a fúria de matadores de dragões.
            Ontem, sábado de carnaval, tive a brilhante ideia de acompanhar a vó a um desses mercados em busca de víveres para o feriado. A lotação do lugar era desanimadora, mas como não apenas é preciso saber viver, mas também é fundamental comer e limpar a bunda, vestimos nossas armaduras e encilhamos nossos Roncinantes de quatro rodinhas.
            Encurralada entre os corredores do estabelecimento, eu, que havia conseguido um daqueles carrinhos pequenos, ou seja, que garante maior mobilidade por entre a turba, deixei algumas compras no carrinho, o qual foi eticamente posicionado em um lugar que não dificultasse a passagem dos demais visigodos, e adentrei outros corredores procurando o que faltava, deixando o carrinho a minha espera. Nem eu mesma consigo imaginar a minha cara quando, ao voltar ao local, me deparei com a caridade de algum bom samaritano que cometeu a boa ação de ser gentil consigo mesmo: o mentecapto, que estava de posse de um carrinho grande, simplesmente tirou minhas compras do carrinho pequeno, o qual EU estava usando, e colocou no seu, escapando sorrateiramente com o meu carrinho e deixando o trambolho de herança para mim, para que eu atravessasse a torre de babel aos trancos e barrancos enquanto o bom cristão fazia suas próprias compras com o carrinho menor.
            Fico pensando na expressão desse cidadão se eu o tivesse flagrado no ato, qual seria a desculpa? Esse tipo de gente é o mesmo que vai ao mercado em horário de movimento, atropela velhinhas, não pede desculpas, e depois ainda sai alardeando aos quatro ventos que gente velha tem que ficar em casa esperando a morte chegar para não atrapalhar as pessoas mais importantes da sociedade, ou seja, eles, os selvagens.
            Como eu não me considero uma pessoa carnavalesca, e nesse sentido quero dizer que não me considero uma integrante da tribo do Conan, eu ri. E rindo vou enviar uma carta ao Papa Chiquinho – diz que ele responde pessoalmente – pedindo que convoque um concílio para propor um décimo primeiro mandamento: “Não furtarás o carrinho de compras do próximo nos sábados de carnaval.”.

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