terça-feira, 29 de dezembro de 2015

incomunicabilidade


meu medo, silêncio
o desejo, reticente
a pressa, uma metáfora

o suor, permanência
de, morando na tua pele
e, com fúria, impaciência
construir um castelo
para deixar a linguagem
ir à falência

Laurene Veras

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

invenção

se te penso
e te imagino
e muito

é por que és a ideia
a palavra
a ameia
na muralha
por onde espio
teus exércitos
teus meninos
fantasiados
de soldados

se te chamo
e te grito
e te reclamo

é por que és
o cheiro do café
na manhã solitária
o primeiro abrir de olhos
o sempre riso na pantalha

e te poemo
e sonho
percebo
e penso
essa breve melodia
uma quase surpresa

uma pequena
aleivosia
que cometo
contra minha
fortaleza

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poema andarilho

Le Baiser, Pablo Picasso (1969)


você é o mítico painel
que o mestre espanhol
jamais criou:
a fúria está nos detalhes
uns olhos que furtam miragens
a boca difusa em contrastes
a pele que o cheiro deixou
(documento antibarbárie
nas cores de tantas bandeiras)
você é mosaico de olhares
picassos tarsilas riveras
vascos de prados e rayuelas
(pegadas que o vento apagou)
você é todos os lugares
espanhas não peninsulares
a luz que redime da dor

Laurene Veras

domingo, 30 de agosto de 2015

um conto minúsculo





Abraçaram-se como se a vida fora um naufrágio até então.
Na manhã seguinte - seria manhã? não tinha certeza - ele fumaria um cigarro ao lado do ronco do junker, na cozinha, enquanto ela tomava um banho longo, um banho de lavar também o tempo, de limpar todo o passado que escorreria fugitivo pelo ralo do box.

* Tira de Liners.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Pirulin lulin lulin



Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater;
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê...
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

Mario Quintana



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

oração




Esse poema é muito antigo e pensei que o havia perdido, mas nas minhas andanças pelo mundo reapareceu dentro de uma pasta. Sempre quis publicá-lo. É antiquado e muito diferente do que costumo escrever, mas gosto dele porque é forte. Não tenho os créditos da ilustração, mas peguei aqui.
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harpia sombria, de crueldade antiga
ao abrir das asas distribui o fel
alma sinistra, de viver a vida
para na morte nunca ver o céu
filha perdida da ira divina
cálice mórbido de vinho cruel

por me legares um coração ressequido
pela dor recebida, devolvo a maldição
que o sofrimento que me tens transmitido
lhe torne em dobro nessa oração
e que no instante da lágrima mais triste
não tenhas um ombro onde apoiar a mão
eu te duplico a chaga com meu dedo em riste
e que jamais recebas de alguém perdão

se um dia houver quando estiver sozinha
se alguma alma der por ti ali
que enxergue a marca que deixando estou
que reconheça em si a dor que agora é minha
lhe negue alento e não se compadeça
que de ti se esqueça em teu maldito vôo

Lola Davi

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

enlace



não vais carregar o fardo
que somente a mim foi legado
não arder minha ferida
não viver a minha vida

tu mesmo já tens teus pecados
e os meus trôpegos passos
são mortes que a ninguém mais pertencem

para ti guardei os sorrisos
meus sonhos de sonhar acordado
meu canto de cantar compassado
meus beijos de ânsias infindas
e abraços de enlace abrasado

para ti o melhor de mim
por ti, dizer sempre sim
em ti o que há de belo
de nobre
de sol
e de flor

para nós reservei as palavras
que são tradução para amor

Laurene Veras

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mushi-Shi


Num Japão sem tempo Ginko é um Mushi-Shi, uma espécie de sacerdote andarilho que visita comunidades que dependem da natureza para sobreviver. Pausa. Volta tudo. Todos os seres humanos dependem da natureza, mas Ginko visita aqueles cujas atividades de subsistência são indissociáveis das forças naturais, e é aí que entram os Mushis. Os Mushis são formas de vida primitivas sem consciência humana, mas influenciam a vida das pessoas das mais diversas formas. Algumas são benéficas, outras parasitárias. É como se fossem seres elementais, só que numa concepção bem japonesa da coisa, ou seja, são um tipo de espírito da natureza. Raras pessoas conseguem enxergar ou mesmo interagir com os Mushis e o papel de Ginko é fazer com que a relação dos humanos com aqueles não seja invasiva ou maléfica para nenhuma das duas criaturas. Mushi-Shi é baseado em um mangá de mesmo nome e se distingue da maior parte dos animes que ganham os corações e mentes do público ocidental por se utilizar de cenários, cores e gestos extremamente realistas. Alguns quadros parecem fotografias. O que mais impressiona é a sensibilidade e delicadeza com que o roteiro transforma em pura magia sentimentos e comportamentos tipicamente humanos, como a depressão, a obssessão, a frivolidade, o amor, a rejeição, etc. A música é minimalista e absolutamente necessária. A sonoplastia quase nos faz pular da esfera da fantasia para a realidade sem nos arrancar de dentro das fantásticas histórias.
Sempre com uma "mochila" de madeira às costas e um cigarro de Mushi-Shi no canto da boca, Ginko é um contador de histórias curtas mas ancestrais, pois algumas "possessões" por Mushis chegam a séculos de permanência.
Quer detalhes técnicos? Procura no google, criança. Não sou especialista em cultura japonesa, infelizmente, e esse blog nem é para isso. Esse blog é sobre o Belo.
Muito obrigada ao querido Augusto Menna Barreto pela dica indispensável.
Disponível no Netflix.






segunda-feira, 6 de julho de 2015

as palavras
são catanas


as palavras são mortalhas

daqui
do cume de nenhum lugar
as palavras são migalhas
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o que vai no peito
tem um jeito
incompreensível de ser.

Laurene Veras

sexta-feira, 13 de março de 2015

Heresia lírica



Vou-me embora para Gotham

Vou-me embora para Gotham
Lá sou amigo do Pinguim
Terei a mulher que eu quero
Numa cama só para mim
Vou-me embora para Gotham

Vou-me embora para Gotham
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo irreverente
Que o Coringa, louco demente
Vem a ser contraparente
De toda minha família

E como roubarei bancos
Darei risadas com o Charada
Articularei conspirações
Contra o comissário Gordon
E quando eu estiver cansado
Sento na torre, ao lado de um gárgula
E mando chamar o Alfred
Para me contar histórias
Que quando Bruce Wayne era menino
Ele vinha lhe contar
Vou-me embora para Gotham

Em Gotham tem de tudo
É outra civilização
Não tem sol
É sempre escuro
E eu adoro a escuridão
Tem um hospício sinistro
Tem drogas com o Espantalho
E tem a mulher-gato
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de matar o Batman
− Lá sou amigo do Pinguim –
Terei a mulher que eu quero
Numa cama só para mim
Vou-me embora pra Gotham

Laurene Veras

domingo, 22 de fevereiro de 2015

advertência

meu pai costumava me dar um conselho
que eu achava repugnante:
não crie grandes expectativas
quanto maior for a expectativa
maior será a decepção

eu achava aquilo de uma pobreza de espírito
de uma amargura tão funda
e sentia pena dele

então,
eu pensava
que aquilo significava
que eu não deveria alimentar os meus sonhos
e que de qualquer modo eu jamais os realizaria

era um conselho duro, sujo, feio
imoral

quem diria
que um dia
a compreensão me aproximaria
do aforisma paterno

deve ser isso
que chamam
ser velho

Confissão



a única vez
em toda minha vida
essa mesma vida
que já vai pela metade
só em outro tipo
de oportunidade
me senti tão só
como agora

de um extremo
cortante abandono
que não vem de fora:

quando eu estava perto do meu pai