domingo, 30 de agosto de 2015

um conto minúsculo





Abraçaram-se como se a vida fora um naufrágio até então.
Na manhã seguinte - seria manhã? não tinha certeza - ele fumaria um cigarro ao lado do ronco do junker, na cozinha, enquanto ela tomava um banho longo, um banho de lavar também o tempo, de limpar todo o passado que escorreria fugitivo pelo ralo do box.

* Tira de Liners.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Pirulin lulin lulin



Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater;
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê...
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

Mario Quintana



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

oração




Esse poema é muito antigo e pensei que o havia perdido, mas nas minhas andanças pelo mundo reapareceu dentro de uma pasta. Sempre quis publicá-lo. É antiquado e muito diferente do que costumo escrever, mas gosto dele porque é forte. Não tenho os créditos da ilustração, mas peguei aqui.
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harpia sombria, de crueldade antiga
ao abrir das asas distribui o fel
alma sinistra, de viver a vida
para na morte nunca ver o céu
filha perdida da ira divina
cálice mórbido de vinho cruel

por me legares um coração ressequido
pela dor recebida, devolvo a maldição
que o sofrimento que me tens transmitido
lhe torne em dobro nessa oração
e que no instante da lágrima mais triste
não tenhas um ombro onde apoiar a mão
eu te duplico a chaga com meu dedo em riste
e que jamais recebas de alguém perdão

se um dia houver quando estiver sozinha
se alguma alma der por ti ali
que enxergue a marca que deixando estou
que reconheça em si a dor que agora é minha
lhe negue alento e não se compadeça
que de ti se esqueça em teu maldito vôo

Lola Davi

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

enlace



não vais carregar o fardo
que somente a mim foi legado
não arder minha ferida
não viver a minha vida

tu mesmo já tens teus pecados
e os meus trôpegos passos
são mortes que a ninguém mais pertencem

para ti guardei os sorrisos
meus sonhos de sonhar acordado
meu canto de cantar compassado
meus beijos de ânsias infindas
e abraços de enlace abrasado

para ti o melhor de mim
por ti, dizer sempre sim
em ti o que há de belo
de nobre
de sol
e de flor

para nós reservei as palavras
que são tradução para amor

Laurene Veras

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mushi-Shi


Num Japão sem tempo Ginko é um Mushi-Shi, uma espécie de sacerdote andarilho que visita comunidades que dependem da natureza para sobreviver. Pausa. Volta tudo. Todos os seres humanos dependem da natureza, mas Ginko visita aqueles cujas atividades de subsistência são indissociáveis das forças naturais, e é aí que entram os Mushis. Os Mushis são formas de vida primitivas sem consciência humana, mas influenciam a vida das pessoas das mais diversas formas. Algumas são benéficas, outras parasitárias. É como se fossem seres elementais, só que numa concepção bem japonesa da coisa, ou seja, são um tipo de espírito da natureza. Raras pessoas conseguem enxergar ou mesmo interagir com os Mushis e o papel de Ginko é fazer com que a relação dos humanos com aqueles não seja invasiva ou maléfica para nenhuma das duas criaturas. Mushi-Shi é baseado em um mangá de mesmo nome e se distingue da maior parte dos animes que ganham os corações e mentes do público ocidental por se utilizar de cenários, cores e gestos extremamente realistas. Alguns quadros parecem fotografias. O que mais impressiona é a sensibilidade e delicadeza com que o roteiro transforma em pura magia sentimentos e comportamentos tipicamente humanos, como a depressão, a obssessão, a frivolidade, o amor, a rejeição, etc. A música é minimalista e absolutamente necessária. A sonoplastia quase nos faz pular da esfera da fantasia para a realidade sem nos arrancar de dentro das fantásticas histórias.
Sempre com uma "mochila" de madeira às costas e um cigarro de Mushi-Shi no canto da boca, Ginko é um contador de histórias curtas mas ancestrais, pois algumas "possessões" por Mushis chegam a séculos de permanência.
Quer detalhes técnicos? Procura no google, criança. Não sou especialista em cultura japonesa, infelizmente, e esse blog nem é para isso. Esse blog é sobre o Belo.
Muito obrigada ao querido Augusto Menna Barreto pela dica indispensável.
Disponível no Netflix.